quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Código penal da vida futura

O Código penal da vida futura faz parte do capítulo VII - As Penas Futuras Segundo o Espiritismo, da obra de Allan Kardec (1804-1869), O Céu e o Inferno.
O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

3º - Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.

A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.

A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.

De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4º - Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.

O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.

6º - O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8º - Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha conseqüências fatais, como não na uma única ação meritória. um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais ações um começo de progresso.

9º - Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

10º - O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências.

Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.

11º - A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

12º - Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.

13º - A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.

Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.

Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

    (1) Vede cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.

14º - Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

15º - Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)

    (2) Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da Academia, o que não significa que o seja ad perpetuam, mas unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perpétuo se empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta acepção pode dizer-se que as penas são eternas, para exprimir que não têm duração limitada; eternas, portanto, para o Espírito que lhes não vê o termo.

16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

17º - O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.

Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.

A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado. (1)

    (1) A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. que se pode considerar verdadeira lei de reabilitação morai dos Espíritos. Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais cômodo o poder quitarem-se das más ações por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras, por meio de algumas fórmulas; contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes bastava. Nós poderíamos perguntar se esse principio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse, por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente.

    Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?

    Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e respectivas penas eternas, visto como interessa a vida em sua plena atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa, ou a sua verdadeira situação.

18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

19º - Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.

Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.

20º - Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.

Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

OBSERVAÇÃO - Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre interdita qualquer idéia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.

Diante dessa lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

21º - A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.

Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.

22º - Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.

A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.

Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico despertar.

23º - Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.

24º - Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25º - Espíritos há mergulhados em densa treva; outros se encontram em absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.

Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.

26º - Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as conseqüências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.

27º - O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.

28º - A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.

Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, paga-la-ão mui caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados," (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V.)

29º - Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a conseqüência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

30º - Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

31º - As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. z na vida corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a perfectibilidade. (1)

    (1) Vede 1ª' Parte, cap. V, "O purgatório", nº 3 e seguintes; e, após, 2ª Parte, cap. VIII, "Expiações terrestres". Vede, também, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos".

32º - Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceitá-lo.

Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei.

injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.

Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.

Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.

O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.

33º - Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1º - O sofrimento é inerente à imperfeição.

2º - Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3º - Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: - tal é a lei da Justiça Divina.

A vida tá difícil? Você está desanimado? Vejam o exemplo do Nick Vujicic

A vida é uma luta, todos nós sabemos.
E na verdade as pessoas reclamam muuuuuuuiiiiiiiiiito.
E geralmente por pouca ou qualquer coisa.
Agora vejam o exemplo desse guerreiro.
O australiano de Melbourne Nick Vujicic, descendente de sérvios, com todas as limitações que possui, com todas as dificuldades até das escolas aceitarem sua condição, conseguiu entrar na universidade e tem duas graduações, Contabilidade e Planejamento Financeiro. É palestrante internacional na área de Motivação.
É um guerreiro no bom sentido, de não desanimar, de persistir sempre.
No segundo vídeo, onde conta um pouco mais da sua história dá para a gente ter idéia de onde Nick tirou forças para superar suas limitações físicas, com certeza o amor de sua mãe e de seu pai (pastor evangélico) contribuiram de forma decisiva para seu despertar espiritual.
Aí posso dizer que fica fácil o entendimento do Código Penal da Vida Futura, que faz parte do Capítulo VII, As Penas Futuras Segundo o Espiritismo, do livro O Céu e o Inferno, codificado por Allan Kardec, que em seu parágrafo 9, nos ensina que todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não o for em uma existência, se-lo-á na seguinte ou seguintes, vide também os parágrafos 11, 16, 19, 20, 21.
Creio que aí estão as respostas que Nick e tanta gente procuram para suas dúvidas, para a compreensão dos problemas atuais, pois como responsáveis por todas as nossas ações, sofremos suas boas e más consequências.
Que façamos bom uso do nosso irrestrito livre arbítrio.
Meu afetuoso abraço ao Nick e a todos.
Ronaldo
Vejam mais da história do Nick.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Filme dos Espíritos - comentários

Fui assistir hoje ao filme.
Um roteiro muito bem elaborado.
Nota 1.000.Analisando sob a ótica da Doutrina, achei impecável.
Narrativa que emociona, com muita clareza nas abordagens.
Ao mesmo tempo que esclarece, é um convite a nossa autotransformação.
Não percam. Não é todo dia que tem uma estréia tão boa.
Ronaldo São Romão Sanches
Campo Grande-MS

O diretor de "O filme dos espíritos" fala sobre o longa metragem que estreou dia 7/10.

domingo, 9 de outubro de 2011

Hipóteses para o Fenômeno Mediúnico

Alexandre Aksakof admite três hipóteses para o fenômeno mediíunico e analisa neste artigo as três manifestações.

É extremamente importante reconhecer e estudar a existência e a atividade desse elemento inconsciente da nossa natureza, nas suas mais variadas e mais extraordinárias manifestações como as vemos no Animismo. Só tomando esse ponto de partida é que é possível dar uma razão de ser aos fenômenos e às pretensões do Espiritismo, pois que, se alguma coisa sobrevive ao corpo e persiste, é precisamente o nosso inconsciente, ou, melhor, essa consciência interior que não conhecemos presentemente, mas que constitui o elemento primordial de toda individualidade.
Dessa maneira, temos à nossa disposição não uma, porém três hipóteses, suscetíveis de fornecer a explicação dos fenômenos mediúnicos, hipóteses cada uma das quais tem a sua razão de ser para a interpretação de uma série de fatos determinados; por conseguinte, podemos classificar todos os fenômenos mediúnicos em três grandes categorias que se poderiam designar da maneira seguinte:

1° - Personismo - Fenômenos psíquicos inconscientes, produzindo-se -nos limites da esfera corpórea do médium, ou intramediunicos, cujo caráter distintivo é, principalmente, a personificação, isto é, a apropriação (ou adoção) do nome e muitas vezes do caráter de uma personalidade estranha à do médium. Tais são os fenômenos elementares do mediunismo: a mesa falante, a escrita e a palavra inconsciente. Temos aqui a primeira e a mais simples manifestação do desdobramento da consciência, esse fenômeno fundamental do mediunismo. Os fatos dessa categoria nos revelam o grande fenômeno da dualidade do ser psíquico, da não identidade do “eu” individual, interior, inconsciente, com o “eu” pessoal, exterior e consciente; eles nos provam que a totalidade do ser psíquico, seu centro de gravidade, não está no “eu” pessoal; que esse último não é mais do que a manifestação fenomenal do “eu” individual (numenal); que, por conseguinte, os elementos dessa fenomenalidade (necessariamente pessoais) podem ter um caráter múltiplo - normal, anormal ou fictício -, segundo as condições do organismo (sono natural, sonambulismo, mediunismo). Esta rubrica dá razão às teorias da “cerebração inconsciente” de Carpenter, do “sonambulismo inconsciente ou latente” do Doutor Hartmann, do “automatismo psíquico” dos Srs. Myers, Janet e outros.
Por sua etimologia, a palavra pessoa seria inteiramente apta para justificar o sentido que convém dar à palavra personismo. No latim persona se referia antigamente à máscara que os atores colocavam no rosto para representar a comédia, e mais tarde se designou por esta palavra o próprio ator. 

2° - Animismo - Fenômenos psíquicos inconscientes se produzidos fora dos limites da esfera corpórea do médium ou extramediúnicos (transmissão do pensamento, telepatia, telecinesia, movimentos de objetos sem contacto, materialização). Temos aqui a manifestação culminante do desdobramento psíquico; os elementos da personalidade transpõem os limites do corpo e manifestam-se, à distância, por efeitos não somente psíquicos, porém ainda físicos e mesmo plásticos, e indo até à plena exteriorização ou objetivação, provando por esse meio que um elemento psíquico pode ser, não somente um simples fenômeno de consciência, mas ainda um centro de força substancial pensante e organizadora, podendo também, por conseguinte, organizar temporariamente um simulacro de órgão, visível ou invisível, e produzindo efeitos físicos.
A palavra alma (anima), com o sentido que tem geralmente no Espiritismo e no Espiritualismo, justifica plenamente o emprego da palavra animismo. Segundo a noção espirítica, a alma não é o “eu” individual (que pertence ao Espírito), porém o envoltório, o corpo fluídico ou espiritual desse “eu”. Por conseguinte, nós teríamos, nos fenômenos anímicos, manifestações da alma, como entidade substancial, o que explicaria o fato de essas manifestações poderem revestir também um caráter físico ou plástico, segundo o grau de desagregação do corpo fluídico ou do “perispírito”, ou ainda do “metaorganismo”, segundo a expressão de Hellenbach. E, como a personalidade é o resultado direto do nosso organismo terrestre, segue-se dai naturalmente que os elementos anímicos (pertencentes ao organismo espiritual) são também os portadores da personalidade. 

3° - Espiritismo - Fenômenos de personismo e de animismo na aparência, porém que reconhecem uma causa extramediúnica, supraterrestre, isto é, fora da esfera da nossa existência. Temos aqui a manifestação terrestre do “eu” individual por meio daqueles elementos da personalidade que tiveram a força de manter-se em roda do centro individual, depois de sua separação do corpo, e que se podem manifestar pela mediunidade ou pela associação com os elementos psíquicos homogêneos de um ser vivo. Isso faz que os fenômenos do Espiritismo, quanto ao seu modo de manifestação, sejam semelhantes aos do personismo e do animismo, e não se distinga deles a não ser pelo conteúdo intelectual que trai uma personalidade independente.
Uma vez admitidos os fatos dessa última categoria, claro é que a hipótese que daí resulta pode igualmente ser aplicada aos fatos das duas primeiras categorias; ela não é mais do que o desenvolvimento ulterior das hipóteses precedentes. A única dificuldade que se apresenta é que, muitas vezes, as três hipóteses podem servir com o mesmo fundamento para a explicação de um só e mesmo fato. Assim, um simples fenômeno de personismo poderia também ser um caso de animismo ou de Espiritismo. O problema é pois decidir a qual dessas hipóteses é preciso atender, pois que se enganaria quem pensasse que uma só é bastante para dominar todos os fatos. A crítica proíbe ir além da que basta para a explicação do caso submetido à análise (3).
Assim, pois, o grande erro dos partidários do Espiritismo é ter querido atribuir todos os fenômenos, geralmente conhecidos sob esse nome, aos “espíritos”. Este nome, por si só, basta para nos insinuar em um mau caminho. Ele deve ser substituído por um outro, por um termo genérico, não envolvendo hipótese alguma, doutrina alguma, como por exemplo à palavra mediunismo, denominação que desde muito tempo introduzimos na Rússia.
Toda verdade nova, no domínio das ciências naturais, faz seu caminho lentamente, gradualmente, porém seguramente. 
Publicado no Vade Mecum Espírita.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Notas históricas sobre João Huss


Nota da Redação do Reformador:
“De há muito carecíamos de umas “Notas Históricas sobre João Huss”. O Professor Celso Martins no-las elaborou a fim de tornar menos penoso o esforço de síntese do espírita que precisa de dados para as suas palestras ou artigos, mas que só são encontráveis desde que se compulsem muitos volumes.
Para que se tenha uma noção disso, basta que se registre ser preciso recorrer a duas obras de grande valor para encontrar o seguinte: “A Bohêmia considera-o a um tempo patriota e mártir da fé. Como escritor, tinha fixado a ortografia e reformado a língua tcheca.” (Grande Enciclopédia Delata Larousse). “Livros em tcheco e latim:Questio de Indulgentiis (1412), Explication de la foi(1412), De Ecclesia (1413), Explication des Saint Évangiles (1413).” (Dictionnaire Universel des Noms Propres - “Petit Robert”, volume 2, p. 885)
Em setembro de 1869, há um trabalho na Revue Spirite, pp. 264 a 272, que consiste em artigo do Siècle, de 11-7-1869 (a propósito do 5º aniversário de Jean Huss), comentários da redação da RS e mensagens mediúnicas de 14-8-1869 (assinada Jean Huss) e 17-8-1869 (assinada Allan Kardec).
No Anuário Espírita (1973) foi estampado artigo de Wallace Leal V. Rodrigues: “João Huss na História do Espiritismo”, do qual Reformador colheu algumas gravuras, tendo-o feito igualmente do “Larousse du XXe Siècle”.
De mensagem ditada pelo Espírito H. de Campos a F. C. Xavier, aos 22-9-1942 (lida no Pacaembu, em S. Paulo, dia 03-10-1942), publicada em “Reformador” de setembro de 1978, p. 239, extraímos os seguintes tópicos:

Depois de se dirigir aos numerosos missionários da Ciência e da Filosofia, destinados à renovação do pensamento do mundo no século XIX, o Mestre aproximou-se do abnegado João Huss e falou, generosamente:
-Não serás portador de invenções novas (...), mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. (...)
-Preparam-se os círculos de vida planetária a grandes transformações nos domínios do pensamento. Imenso número de trabalhadores no mundo, desprezando o sentido evolucionário da vida, crê na revolução e nos seus princípios destruidores, organizando-lhe movimentos homicidas. Em breve, não obstante nossa assistência desvelada, que neutralizará os desastres maiores, a miséria e o morticínio se levantarão no seio das coletividades invigilantes. A tirania campeará na Terra, em nome da liberdade, cabeças rolarão nas praças públicas em nome da paz, como se o direito e a independência fossem frutos da opressão e da morte. Alguns condutores do pensamento, desvairados de personalismo destruidor, convertem a época de transição do orbe em turbilhão revolucionário, envenenando o espírito dos povos. O sacerdócio organizado em bases econômicas não pode impedir a catástrofe. A Filosofia e a Ciência intoxicaram as próprias fontes de ação e conhecimento!...
É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade.
O Evangelho do Amor permanece eclipsado no jogo de ambições desmedidas dos homens viciosos!... Vai, meu amigo. Abrirás novos caminhos à sagrada aspiração das almas, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Na restauração da verdade, no entanto, não esperes os louros do mundo, nem a compreensão de teus contemporâneos.
Meus enviados não nascem na Terra para serem servidos, mas por atenderem às necessidades das criaturas. Não recebem palmas e homenagens, facilidades e vantagens terrestres, contudo, minha paz os fortalece e levanta-os, cada dia...
(...) Ante a emoção dos trabalhadores do progresso cultural do orbe terreno, o abnegado João Huss recebeu a elevada missão que lhe era conferida, revelando a nobreza do servo fiel, entre júbilos de reconhecimento.
Daí a algum tempo, no alhor do século XIX, nascia Allan Kardec em Lyon, por trazer a divina mensagem.”

Amaral Ornellas, responsável, à época, pela Secretaria de Reformador, publicou em 3-10-1920 trabalho de sua lavra intitulado “O Codificador”, que encerrou desta maneira:

Quem conhece a biografia de Kardec e sabe com que serenidade estóica ele enfrentou os ódios da inimizade intransigente, da calúnia, da inveja e do ciúme, armas terçadas pela inquisição moderna contra aqueles que pairam acima das trivialidades mundanas, tem a consoladora certeza de que esse elevado Espírito soube cumprir com galhardia a missão que Jesus lhe confiara.
Glorioso Rivail, nós aguardamos a tua volta, se é que ainda não estás no planeta acumulando forças para novos empreendimentos!
E quando, no velho ou no novo mundo, aparecer um filósofo que venha continuar a tua obra de evangelização, nesse gigante do pensamento, em qualquer parte do Universo em que nos encontrarmos, saudaremos o João Huss que ardeu na fogueira de Constança e o inesquecido Kardec a quem a inquisição retardatária feriu com o seu último auto-de-fé, mandando incinerar-lhe as obras, por ordem de um bispo, numa colina em que pereciam os condenados à morte, na católica cidade de Barcelona.
Assim, após essas terríveis convulsões sociais, nascidas dessa tremenda expiação coletiva que foi a guerra, uma aurora de paz e de concórdia despontará no planeta e, como fortalecido pela fé, um Denizard Rivail mais alentado pelo amor, unindo todos os credos filosóficos à palavra do Cristo, para que se estabeleça na Terra a verdadeira fraternidade.” (Reproduzido em 1977, pp. 297 a 299)

*

Por tudo quanto foi aqui exposto, o contributo de Celso Martins é benvindo: ele nos coloca no contexto da época de João Huss, dentro dos episódios históricos e diante das personalidades que cercaram o inolvidável missionário que efetivamente representa a gênese de um movimento que ainda continua no mundo, com outro nome, pregando a volta do Cristianismo à pureza simples dos tempos apostólicos e dos mártires da fé.
A Redação


1 - A Idade Média ou Medieval

Por idade Média ou Medieval entendemos o período da História da Humanidade que vai do século V até o século XV. Segundo alguns historiadores, teria início no ano de 395, quando o Império Romano se dividiu em Império do Ocidente e Império do Oriente ou Império Bizantino. E terminaria em 1453, quando os turcos otomanos tomaram Constantinopla, a capital do Império Bizantino. Para outros pesquisadores, a Idade Medieval começaria em 476, quando Roma (capital do Império do Ocidente) foi submetida aos bárbaros; e findaria em 1492, quando Colombo descobriu o Novo Mundo.
São da Idade Média as Cruzadas, atirando cristãos (católicos, para dizer melhor) contra os maometanos. É desta fase histórica a ação dos chamados bárbaros, ou seja o ataque dos hunos, dos vândalos, dos lombardos, dos visigodos, entre outros, contra as nações cristãs do continente europeu. Da Idade Medieval são figuras famosas as de Maomé, Carlos Magno, Constantino, Ricardo Coração de Leão, João Sem Terra, Francisco de Assis, Joana D’ Arc, etc. Por fim, é da Idade Média a Guerra de Cem Anos, entre a França e a Inglaterra. Encontramos ainda nesta época os Principados e os Ducados Russos, o Reino da Suécia, o da Noruega, das Castela, de Aragão, da Polônia, da Hungria, etc.
Submetida em parte pelos árabes, adeptos do Islamismo de Maomé, a Europa medieval estava também dividida em feudos, sendo que, não raro, os proprietários destas grandes extensões territoriais detinham muito mais autoridade do que os próprios reis. Muito influente na época, de igual maneira, a Igreja Católica, que, através de seus dignatários, controlava em larga escala a política então vigente.

2. - A Boêmia

Numa tentativa de centralização, formou-se a partir de 1254 o Sacro Império Romano Germânico, sob a liderança da Germânia (futura Alemanha), reunindo regiões como a Áustria, a Morávia, inúmeras cidades italianas, etc. Desse Sacro Império Romano Germânico fazia parte a Boêmia, sendo que o referido Império perdurou até 1808.
Conquistada no século V pelos eslavos, a Boêmia constituiu-se em reino independente até 1556, quando foi anexada à Áustria. Em 1919 passou a integrar a Tchecoeslováquia, o que se dá até os nossos dias, com ligeira interrupção entre 1939 e 1944, quando esteve anexada à Alemanha Nazista.

3 - O Descontentamento dos Boêmios

Jan Hus (que em tcheco quer dizer ganso) nasceu filho de camponeses, em 1369, na pequena cidade de Husinec, pertencente à Boêmia. Devido à pobreza de seus pais, João Huss só pode estudar por ser dotado de viva inteligência, granjeando a simpatia de alguns monges. Por estes amparado, em 1398 Huss formou-se em artes, pela Universidade de Praga, e começou a lecionar Teologia, fazendo-se bastante conceituado nos meios universitários. Conseguiu ser nomeado deão da Faculdade de Filosofia e, mais tarde, reitor da Universidade. Data de 1400 a sua ordenação como padre católico.
Mas acontece que, naquela ocasião, havia um grande descontentamento entre os habitantes da Boêmia. Primeiramente, porque o feudalismo estava como que entravando o pleno desenvolvimento do comércio. As corporações dos artesãos e as ligas dos mercadores deveriam pagar altas taxas aos senhores feudais, o que encarecia as mercadorias em geral. É a situação se fazia mais crítica porque a maior parte dos senhores feudais eram alemãs, uns bispos e outros simplesmente leigos. Os boêmios desejavam- libertar-se da dominação germânica. A própria Universidade de Praga (fundada em 1247, por Carlos VI) era constituída de duas nações germânicas (bávaros e saxões) e de duas nações eslavas (boêmios e poloneses). Por ela se tentava levar a Teologia dos alemães para os eslavos, mas não conseguindo, porém, pois eram constantes as brigas entre estudantes em plena Praga, já capital do Reino da Boêmia.
O outro grande motivo de descontentamento derivava da desmoralização generalizada da Igreja, sob cujo poder espiritual estava a Boêmia submetida.

4 - Da História da Igreja

Em 1305 o Papa Benedito XI se viu obrigado a retirar-se da Itália por sentir-se ali ameaçado por seus inimigos, fixando residência em Avignon, na França. Esta cidade ficou sendo a sede dos papas até 1377, quando Gregório XI, atendendo aos apelos que lhe vinham de todas as partes, sobretudo da Itália, resolveu terminar com o que os italianos chamavam de ‘cativeiro de Babilônia’. Resolveu voltar para os Estados da Igreja, fixando-se em Roma.
Falecendo Gregório XI no ano seguinte (1378)  diversos cardeais elegeram Urbano VI. Dezesseis outros cardeais, no entanto, não endossaram tal eleição e elegeram o francês Clemente VII, que ficou, de novo, em Avignon. Morrendo um e outro, novos sucessores foram eleitos, um em Roma e outro em Avignon, agravando-se a cisão do mundo católico, pois a cada papa de sua parte se considerava o legítimo representante de Deus na Terra, junto aos homens, e dizendo ser o outro o antipapa. De seu lado, os reis arrogavam-se o direito de escolher qual dos dois sumos pontífices seus súditos deveriam servir.
Assim é que, em 1398, o Rei Venceslau, da Germânia (Alemanha), acertou com o Rei da França a abolição daquela situação bipapal. Foram os dois abolidos. Mas os cardeais não aceitaram esta intromissão dos reis citados. Reuniram-se em Pisa, no ano de 1409, depuseram Gregório XII, de Roma e Benedito XIII, de Avignon. E elegeram um terceiro (!) papa, na pessoa do grego Alexandre V.
O arcebispo de Praga, a princípio, obedecia a Gregório XII. Quando, entretanto, percebeu que o Reino da Boêmia era fiel ao novo papa de Pisa (Alexandre V), reconheceu-o também. Para demonstrar-lhe gratidão por este gesto, o terceiro papa ordenou a queima das obras de Wiclef e proibiu ao Mestre João Huss pregar.
A par desse descalabro nas altas esferas da Igreja, o clero também não dava exemplos dignos de ser seguidos. Ao invés de espiritualizar-se e espiritualizar o povo, a maioria dos sacerdotes caiu nas baixezas mundanas. Levavam uma vida de aventuras amorosas, de riscos guerreiros, de prazeres do estômago, muito distantes das virtudes cristãs. Muitos andavam armados como se soldados fossem e exerciam cargos civis, auferindo, assim, rendimentos consideráveis.

5 - As Idéias de Wiclef

Na Inglaterra viveu, de 1320 a 1384, João Wiclef (ou John Wycliffe).
Desde 1337 aquele Reino estava se debatendo em luta com o da França  (Guerra de 100 anos). Em razão das operações militares, várias mudanças sociais foram sacudindo o povo inglês. Entre estas transformações da sociedade ressaltou-se a oposição que se fazia aos impostos eclesiásticos: admitiam os britânicos que o dinheiro arrecadado pelos padres iria enriquecer os seus adversários franceses, de vez que o papa (um deles) estava em Avignon.
Wiclef, reitor do Colégio Balliol, em Oxford (desde 1356), e guardião de Canterbury (1365), ilustre teólogo, colocou-se ao lado do Rei Eduardo III contra os impostos papais. Em verdade, durante sua vida elaborou nada menos do que 96 obras em latim (idioma oficial da Igreja), 65 em inglês e ainda traduziu a Bíblia para a língua nacional, a fim do pô-la ao alcance do povo.. No trabalho intitulado Sobre a Eucaristia, por exemplo, negava terminantemente o milagre da transubstanciação, isto é, não aceitava a transformação do vinho em sangue nem do pão em corpo de Cristo, pela consagração. Ora, era a mais grave das heresias, pois atingia em cheio um dos mais importantes dogmas da Igreja Católica.
Mais tarde, Wiclef passou a atacar o alto clero porque ele não exercia mais atividades de caridade nem observava o voto de pobreza. Ao contrário, sendo os seus componentes elementos que vinham da nobreza, viviam em alto luxo, gozando os benefícios das ricas heranças das famílias feudais, metendo-se em negócios do Estado, enquanto o baixo clero, formado de elementos oriundos do seio do povo, continuava pobre e analfabeto.
Em 1376 lançou o livro Sobre a Propriedade Privada, onde declarava que as terras da Igreja deveriam ser tomadas pelo Estado, já que no seu entender a Igreja deveria cuidar exclusivamente de assuntos espirituais.
O Papa Gregório XI tentou silenciá-lo. No entanto, contando com o apoio do Parlamento inglês, Wiclef logrou defender-se sempre. E de fato teve tanta liberdade de ação que se voltou contra aquela situação anômala de dois papas simultâneos. Voltou-se ainda contra outros dogmas, como o da absolvição dos pecados e até mesmo contra a hóstia.
Termina então a Guerra dos Cem Anos com a derrota inglesa. O rei se viu na obrigação de proteger os interesses da nobreza e teve de agir sobre as classes pobres, de vez que a miséria se alastrava por todo o país. Os camponeses tentaram reagir mas foram, por fim, submetidos a um regime de servidão. Esta derrocada do povo desprestigiou a Igreja pobre. Não obstante, Wiclef continuou em sua luta propugnando uma reforma religiosa, morrendo em virtude de um derrame cerebral nas últimas horas do ano de 1384.
Seus seguidores foram perseguidos, mas na Boêmia é que vai surgir a figura de seu adepto mais fervoroso, na pessoa de João Huss.

6 - O Mestre João Huss

Nomeado pregador da Capela de Belém, desde cedo mostrou-se o mestre Huss favorável às idéias de Wiclef. Entre outras coisas, não admitia a ocorrência de milagres. O clero se irritou com isto e tomou-lhe logo o cargo de pregador. E o citou perante a Cúria Romana. A Rainha Sofia, porém, por gostar dele, contribuiu para torná-lo chefe do partido nacional. E Huss não compareceu perante o papa para defender-se de seus acusadores.
O Reino de Boêmia, por questão de prudência, talvez, a princípio não se meteu na briga entre Gregório XII e Alexander V. Mas quando este último (sediado em Pisa) começou a perseguir os adeptos de Wiclef, todo o clero inferior, a Universidade de Praga e mesmo o povo da Boêmia se colocaram ao lado de João Huss, que continuou a pregar, apesar da proibição expressa em bula pelo Papa Alexandre V. Prosseguiu sua vida de bondade e de fidelidade às leis de Deus.
A 15 de março de 1411, por ordem do Arcebispo Zbynek foi anunciada em Praga a excomunhão, decretada pelo Cardeal Oton de Colona, contra Huss, pelo fato de ele não ter comparecido ao tribunal do papa, agora não mais Alexandre V, ao que consta envenenado, mas sim João XXIII.
O Rei da Boêmia, Venceslau IV, se irritou com o papa que não atendeu aos seus apelos (bem como os da Rainha Sofia), no sentido de anular as exigências do falecido pontífice. Ausentando-se de Praga o Arcebispo Zbynek castiga os padres da cidade, que apoiavam Huss. Em represália, Venceslau IV favorece os wiclefistas, confiscando os bens do arcebispo, atirando-o a uma situação financeira precária. Para por fim àquelas disputas, o Rei criou um tribunal conciliatório (6 de julho de 1411): de um lado João Huss e seus adeptos submetiam-se ao arcebispo e este, então, diante da confissão de fé de Huss, intercederia em seu favor, com o apoio real, junto ao papa. Doutra parte, os bens do eclesiástico ser-lhe-iam devolvidos integralmente.
João Huss aceitou a decisão do tribunal de conciliação. O arcebispo chegou a preparar uma carta para o papa. Como, porém, o Rei demorasse muito em fazer-lhe a devolução dos bens. Zbynek vai buscar auxílio de Sigismundo, Rei da Hungria e imperador da Alemanha, por sinal irmão do próprio Venceslau. Não chegou, no entanto, o arcebispo até a corte de Sigismundo - morreu em viagem, em 28 de setembro de 1411. E seu sucessor (Albik), amigo de Venceslau, deixa Huss em paz!
Ocorre que, tendo subido à cadeira papal em Pisa a 4 de maio de 1410, o napolitano João XXIII passou a hostilizar abertamente seu colega Gregório XII (sediado em Roma); entrou em guerra contra o Rei de Nápoles, de nome Ladislau. E assim, a 12 de abril de 1411, João XXIII se apoderou de Roma; em junho do mesmo ano obrigou Ladislau a reconhecê-lo como legítimo representante de Deus junto aos homens e ainda em setembro de 1411, por não confiar em Ladislau, acaba por excomungá-lo.
Como se tudo isso não bastasse, o novo papa pregou uma cruzada contra o pobre Rei de Nápoles e promulgou indulgências a todos que, pessoalmente, ou por meio de dinheiro (sic), o auxiliassem naquela campanha!
Vários sacerdotes, então, foram encarregados de vender tais indulgências. Os seus compradores estariam remidos das penas purgatoriais enchendo de moedas e mais moedas os cofres da Igreja de Roma!... Evidentemente, tal comércio gerou indignação e tumultos por todos os lados. Os teólogos da Universidade de Praga, do qual João Huss fazia parte, não se definiram claramente se deveriam ou não cooperar com o papa naquela empresa. João se insurge abertamente declarando que só Deus tem o poder de dar indulgências. Os padres podem anunciá-las, jamais vendê-las! No que foi seguido por um discípulo chamado Jerônimo, mais tarde conhecido como Jerônimo de Praga.
Em torno do assunto, na Boêmia, levantou-se tanta confusão, que os emissários do papa para recolher o dinheiro não eram mais respeitados. Mesmo porque o povo estava instruído por João e por Jerônimo.
Sabendo das lutas travadas em Praga contra a venda vergonhosa das indulgências, João XXIII indeferiu as apelações a favor de Huss, entregando o processo ao Cardeal Pedro degli Stefaneschi, o qual na verdade confirmou a bula anterior excomungando-o, proibindo-o de celebrar missas e casamentos e determinando fosse a bula lida em todas as igrejas.
Novas determinações perseguiram seus amigos, parente e até criados.  Em setembro chegou a ordem de demolição da Capela de Belém; e mais - chegou a ordem de prender João Huss, onde quer que estivesse, julgá-lo e queimá-lo vivo porque era um herege. Como se sabe, o Tribunal da Inquisição, que tanta gente levara à fogueira, fora  instalado no século XIII, por determinação do Papa Inocêncio III. Novos distúrbios se verificaram na capital da Boêmia, pois o povo não aceitava as ordens papais. Huss, para evitar inúteis tumultos, refugiou-se no Sul do país, na fortaleza de um amigo, onde escreve canções religiosas, obras teológicas e morais em língua tcheca, destinadas ao povo ao qual ainda falava, nos castelos, nas aldeias, nas vilas, até mesmo à beira das estradas, quando os padres não lhe abriam as portas de suas capelas.

7 - O Concílio de Constança

Contando com apoio do Rei Sigismundo, João XXIII resolveu convocar para 1º de novembro um Concílio na cidade alemã de Constança, a fim de dar solução a questões de costumes e de direitos eclesiásticos, bem como esclarecer a unificação da Igreja Católica Romana, repartida entre 3 papas.
Prometendo protegê-lo, Sigismundo consegue convencer João Huss a comparecer ao referido Concílio para defender-se das acusações de que estava sendo vítima. Antes, porém, de seguir viagem, nem o inquisidor de Parga (Bispo Nicolau) nem um sínodo do clero convocado para este fim, em agosto de 1414, encontraram provas contra o pregador tcheco. O próprio Arcebispo Conrado, interpelado pela Assembléia Nacional, em setembro do mesmo ano, declarou que não considerava aquele sacerdote de modo algum um herege. Ao contrário, foi reconhecido como verdadeiro cristão.
Assim, acompanhado de fiéis amigos (mais ainda, fiado num salvo-conduto do Rei), partiu para Constança. Mal sabia ele que seu maior inimigo estava ali em Praga mesmo, na pessoa de Estevão Palec, doutor em Teologia da mesma Universidade, autor de um Tratado da Igreja, o qual não se conformava em ser sobrepujado por Huss em popularidade. Muito embora fosse antes amigo de João, com o tempo a inveja e o despeito fizeram-no seu adversário ferrenho, e que tudo faria em Constança para vê-lo obrigado a retratar-se, humilhar-se, abrir mão de suas idéias wiclefistas. Se isso ocorresse, então as suas idéias, dele, Palec, ganhariam popularidade entre os doutores e mesmo entre o povo da Boêmia.
A 3 de novembro João Huss chega à Constança, onde já se encontrava o papa desde 28 de outubro, com um séquito de mil homens. Aliás, a cidade fervia de gente. Contava com a presença de 3 patriarcas, 29 cardeais, 33 arcebispos, 150 bispos, 300 teólogos, 108 abades, e priores, deães, cônegos, além de 3 eleitores, um margrave[1], 39 duques, 32 condes, muitos embaixadores, cavaleiros, fidalgos, bacharéis, estudantes, num total de 150 mil pessoas e 30 mil cavalos!
Levados por amigos fiéis, como Wenceslau de Dubá, Henrique Lacemborck e João de Chium, Huss compareceu perante o papa, dele recebendo promessa de total proteção. Mas, na primeira oportunidade, o papa fugiu à palavra dada: instigado por Estevão Palec, por Miguel de Causis e pelo Bispo João de Litomysle, João XXIII consente em sua prisão, declarando que o fazia porque era os próprios compatriotas de Huss que o exigiam. E a prisão se dá em 28 de novembro a despeito do salvo-conduto do Rei Sigismundo, que lhe garantiria voltar à Boêmia. Os cardeais pouco valor deram ao documento real e João Huss foi atirado a uma cela onde, embora ficando seriamente doente, escreveu várias cartas aos companheiros distantes.
Mas o Concílio ia tendo lugar. E a mais espantosa ocorrência se deu quando os cardeais obrigaram João XXIII a renunciar, se os outros papas fizessem o mesmo (Benedito XIII e Gregório XII). João XXIII foge para Schafhausen, aí decretando a dissolução do concílio. Os cardeais não acatam esta decisão papal e depuseram os três pontífices e, com o auxílio dos soldados de Sigismundo, a 5 de junho de 1415 prenderam o ex-Papa XXIII.

8 - O Processo contra Huss

Se quisesse, o Rei Sigismundo poderia libertar João Huss. Mesmo porque nenhum cardeal pessoalmente desejava cuidar do caso. Nem mesmo o bispo de Constança. Mas o Rei insistiu em deixar o assunto a cargo do Concílio, de sorte que Huss ficou na dependência de uma comissão de 4 membros, presididos pela arcebispo de Ragusa.
Em abril de 1415, veio a ter a Constança o discípulo fiel Jerônimo de Praga. Recomendado por amigo a que regressasse à Boêmia, o jovem tentou o regresso, mas foi aprisionado, metido em dura prisão e - para encurtar a história - queimado no ano seguinte (1416).
Chegando aos boêmios a notícia da prisão de Huss, 250 aristocratas daí e da Morávia se manifestaram contra o Rei Sigismundo, de nada valendo, porém, esta manifestação dos seus patrícios. Agora, sob a presidência do Cardeal João de Brogni, o processo foi ganhando sequência durante audiências a que João Huss só era admitido depois de feitas as acusações, sem lhe ser dada a oportunidade de defesa. Novo julgamento a 7 de junho de 1415, na presença de seus amigos João de Chlum, Wenceslau de Dubá e Pedro Mladenovice, presidido pelo Cardeal Pedro de Ailly, durante o qual, como antes, Huss não tem ocasião de defender-se, quer dizer, um julgamento tipicamente inquisitorial Ciente da sorte que o aguardava, o intrépido pregador da Boêmia a 10 de julho de 1415 escreveu aos seus patrícios sua última carta na qual conclamava o povo de Praga a respeitar e ouvir a palavra de Deus; a levar uma vida digna e reta, voltada para o estudo e para o trabalho, tendo em vista a glória de Deus, o melhoramento da comunidade e a salvação de suas almas; a orar ao Criador pelo Rei e pela Rainha; mas também a acautelar-se contra homens astutos e sacerdotes indignos que por fora são ovelhas e, por dentro, lobos vorazes!

9 - Atirado às Chamas

Finalmente, a 6 de julho de 1415, cardeais, arcebispos, bispos, prelados, doutores em Teologia, membros do Concílio se reúnem na Catedral, na presença do Cardeal João de Grogni e do Imperador Sigismundo, João Huss deve ser condenado como herege e, por isso mesmo, queimado vivo! Depois do sermão, o Bispo Henrique de Pino, procurador do Concílio, leu em voz alta a sentença. Huss tentou defender-se, mas se viu proibido de falar. Diante da intolerância, o incansável pregador caiu de joelhos e implorou perdão de Deus para seus implacáveis inimigos. Enquanto isso, numa fogueira armada perto da igreja e diante do cemitério, seus livros são queimados.
Em seguida o arcebispo de Milão comanda a sua desordenação: Huss é desvestido das vestes sacerdotais. E, tendo recebido uma ridícula coroa de papel, onde aparece o epíteto de ‘heresiarca’, é entregue ao Conde palatino Luís que, por sua vez, entrega-o ao alcaide (prefeito) da cidade, a fim de ser queimado. Note-se que João Huss não súdito de Sigismundo e sim de Venceslau, a quem deveria ser entregue. Mas isto pouco importa aos seus algozes. Desejavam queimá-lo e pronto! E assim, guardado por mais de 3 mil homens armados, seguido por grande massa popular, foi levado à fogueira medieval. Quando se aproximava do lugar do suplício, vendo que uma pobre velhinha acrescentava gravetos à lenha empilhada, o mártir, com um sorriso de amor, exclamou: - Santa simplicidade!”
Tendo ajoelhado, pediu a proteção de Deus e rejeitou a confissão final, declarando que não lhe pesava nenhum pecado mortal. O carrasco preparava a queima da madeira enquanto o grande apóstolo do Cristo, recitando salmos, profetiza o advento de Martin Luthero, o famosos reformador alemão, declarando:
“- Assais agora um ganso; mas daqui a anos virá um cisne que não podereis assar.” Como se viu, a palavra Huss significa, em tcheco, exatamente ganso.
As chamas são acesas e lhe cobrem o corpo. O valente pregador de Husinec continuou a orara a Deus, implorando perdão pelo ato dos seus inimigos, e se negou a qualquer idéia de retratação.
Queimaram o corpo de Huss. Mas não queimaram suas idéias de reforma dos costumes da Igreja. Não queimaram o ideal superior das almas que seguem sempre os ensinamentos da verdadeira Igreja do Cristo de Deus. Não queimaram da memória e da gratidão da Humanidade a lembrança de um de seus maiores vultos.

10 - Nota Final

Consta que através da mediunidade de Ermance Dufaux foi dito que Allan Kardec teria sido o mesmo João Huss, evidentemente em vida anterior. Tal registro estaria guardado em documento da Livraria de Leymarie, chegando a ser visto pelo pesquisador patrício Canuto Abreu. Mas veio a invasão nazista, na última guerra mundial, e tal documento foi destruído.

Fonte: Revista Reformador (FEB), de março de 1981

autor: Celso Martins

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dia de São Francisco de Assis e a famosa Oração

Comemora-se hoje o Dia de São Francisco de Assis.
Logo nos vem a mente a famosa oração e sua melodia inconfundível.
Mensagem muito bonita que merece nossa reflexão sempre.
Abaixo segue um vídeo com a oração cantada pelo Fagner.
Tentando confirmar a autoria da oração, deparei-me com o artigo A Oração de São Francisco não é dele? Sobre a melodia vi a informação em um dos comentários do vídeo, que é de autoria do Padre Irala, jesuíta paraguaio, radicado no Brasil desde os anos 60. Creio que o mais importante é o seu conteúdo.

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa , que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Filme dos Espíritos chega finalmente ao cinema

O filme baseia-se em uma história real, narrada por Hilário Silva.
A produção de longa-metragem surgiu a partir do Projeto Mundo Maior de Cinema que recebeu, em 2009, cerca de 100 roteiros de jovens diretores e roteiristas de diferentes regiões do país. Desse grupo, oito foram selecionados e contaram com suporte técnico e profissional da produtora. O resultado foi a realização de oito curtas-metragens com tema espiritualista e transcendental. Eles foram exibidos em novembro de 2009 e premiados em diversas categorias. A etapa final dessa iniciativa foi a filmagem de O Filme dos Espíritos. Rodado grande parte na capital de São Paulo, o longa-metragem teve também cenas filmadas em Cajazeiras/PB e nas cidades paulistas de Atibaia, Araçoiaba da Serra e Ubatuba.

O Filme dos Espíritos

"O Filme dos Espíritos" tem roteiro livremente baseado em "O Livro dos Espíritos", escrito por Allan Kardec, em 1857. O longa acompanha um homem que, depois de perder a esposa e o emprego, está à beira do suicídio. Mas ele toma contato com a obra de Kardec, mudando os rumos de seu destino. Com Nelson Xavier, Reinaldo Rodrigues, Etty Fraser, Ênio Gonçalves, Ana Rosa, Alethea Ruas, Sandra Corveloni e participação especial de Luciana Gimenez.

Finalmente homenageado no cinema

Ele surgiu com bases racionais, em critérios de bom senso e discernimento. Fruto da observação de leis naturais, apresentado em formato pedagógico incomparável – seja na sequência dos capítulos e assuntos ou pela didática de sua estrutura –, o fato real conclusivo é que é fonte inesgotável de conhecimentos, tendo se desdobrado em outras obras e continua jorrando como fonte de pesquisa, inspiração, estudos, debates, mantendo-se inatacável em sua atualidade e perfeita coerência com as conquistas da ciência e os mais exigentes questionamentos da filosofia e da religião.
Com extraordinária Introdução e notável Conclusão, cuja leitura e estudo não devem ser dispensados, é obra de síntese, compacta, justamente ensejando no tempo desdobramentos que não se esgotam, que pode analisar e estudar qualquer tema das questões humanas, seja das conquistas da ciência ou nos mais acalorados debates filosóficos e religiosos. Sua estrutura e conteúdo são de tal envergadura moral-filosófica e científica, totalmente embasados em leis naturais que quanto mais o tempo passa mais atual ele se torna, pois as conquistas humanas simplesmente confirmam seu conteúdo. É que nossas descobertas e amadurecimento vão propiciando enxergar os detalhes das entrelinhas, já delineados desde sua publicação.
Por evidente, falamos de O Livro dos Espíritos, lançado em 18 de abril de 1857, por Allan Kardec, pseudônimo do célebre e respeitado professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que nasceu em Lion no dia 3 de outubro de 1804, cujo aniversário, coincidentemente, comemoramos nessa primeira semana de outubro.
Seu centenário, em 1957, e sesquicentenário, em 2007, foram alvo de inúmeras manifestações carinhosas de gratidão, eventos e providências de vulto que buscaram destacar a obra. Agora, 154 anos depois, a obra é homenageada no cinema com O Filme dos Espíritos, justamente lançado na semana em que se comemora o aniversário de Allan Kardec.  Nada mais justo e oportuno, para divulgar a obra e seu organizador.
A espinha dorsal do filme é inspirada em evento real de personagem que, à época de Kardec, separa-se da esposa querida, pelo fenômeno biológico da morte, e, desesperado, tenta a morte frente ao inevitável da separação. Aí depara-se com O Livro dos Espíritos, que lhe salva a vida e o faz ver a própria existência sob o prisma da esperança e de explicações racionais que lhe descortinam outro panorama.  Adaptado à realidade atual, a situação é agora mostrada nas telas do cinema, alcançando de maneira global o grande público, assim como aconteceu com outras produções recentes do gênero.
Finalmente, com alegria e gratidão, vemos a monumental obra O Livro dos Espíritos, homenageada no cinema. Nada mais natural. O progresso das ideias, o “derrubar” dos preconceitos, o amadurecimento da mentalidade humana, só podiam mesmo resultar nesse espaço de grande alcance popular, para despertar o ser humano diante de sua própria realidade de ser imortal destinado à felicidade, alcançando e somando valores morais essenciais à harmonia dos relacionamentos e à construção da paz.
É momento, pois, de apoiar maciçamente a iniciativa, lotando os cinemas, motivando caravanas, somando esforços no despertar da mídia para o importante instante da Doutrina Espírita, que está no ar. Afinal, o conteúdo espírita é farol a iluminar os caminhos humanos.
A estréia é nesta sexta, 7 de outubro, nas capitais e outras poucas cidades. Matão está entre elas. Todavia, o sucesso de público no fim de semana pode significar que a exibição permaneça por muitas semanas em cartaz e despertando o interesse das redes exibidoras para todo o país.
Pensemos bem nos benefícios que podem advir da simples presença maciça no cinema nos primeiros dias de exibição.
Saiba mais sobre o filme. Pesquise e motive. André Marouço, diretor do filme, foi entrevistado pela RIE – Revista Internacional de Espiritismo, edição de setembro de 2011, e também pela revista eletrônica O consolador, edição 228, de 25 de setembro de 2011.
Peço ao leitor amigo, espalhar essa notícia durante a semana. Minha gratidão!

Orson Peter Carrara
- Matão-SP
e-mail: orsonpeter92@gmail.com
http://orsonpetercarrara.blogspot.com/

domingo, 2 de outubro de 2011

Raul Teixeira na Austrália e Nova Zelândia

Raul Teixeira, pesquisador e palestrante espírita brasileiro, de Niterói-RJ, estará entre os dias 8 e 15 de outubro de 2011 na Austrália e dia 16 de outubro em Auckland, na Nova Zelândia, realizando palestras e divulgando a Doutrina Espírita.
Dia 8/10 - Melbourne
Dia 10/10 - Adelaide
Dia 12/10 - Brisbane
Dias 14 e 15/10 - Sydney
Dia 16/10 - Auckland (Nova Zelândia)