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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Doutrina Espírita tem um caráter eminentemente pedagógico

Essa entrevista foi realizada em 2008 pelo nosso amigo Orson Peter Carrara para a revista semanal O Consolador, com o Pedagogo Walter Oliveira Alves, mas é sempre atual. Apenas atualizei os links.
Vale a pena ler.
Abraço a todos
Ronaldo


A Doutrina Espírita tem um caráter eminentemente pedagógico
Uma visão da educação por parte de um pedagogo espírita,
que diz ser urgente investir na Casa Espírita auxiliando
o preparo psicopedagógico dos trabalhadores da
área infanto-juvenil e das demais áreas
Formado em Pedagogia, Filosofia e História da Educação e Psicologia da Educação e Didática, Walter Oliveira Alves é diretor do IDE – Instituto de Difusão Espírita, de Araras (SP), cidade onde nasceu e reside.
Espírita há 35 anos, palestrante e escritor, são de sua autoria os seguintes livros, todos publicados pelo IDE: Deus, Nosso Pai (voltado para a criança), Educação do EspíritoIntrodução ao Estudo da Pedagogia EspíritaPrática Pedagógica na Evangelização (vols. I, II e III) e O Teatro na Educação do Espírito.
De sua dedicação à educação, nasceram o conhecido      Encontro      Anual         de
Evangelização, os dinâmicos sites de pedagogia e a Revista Pedagógica Espírita, assuntos sobre os quais Walter concedeu-nos a seguinte entrevista:


O Consolador: De onde seu interesse pela Pedagogia? E como entender a Pedagogia Espírita?

Meu interesse pela pedagogia vem desde criança. Sempre quis ser professor. Mas o interesse aumentou quando do meu contato com a Doutrina Espírita. Entendemos por Pedagogia em geral, e especialmente por Pedagogia Espírita, a ciência e a arte da educação, o processo através do qual se desenvolve o "germe" da perfeição no íntimo de cada um, Espíritos imortais que somos, filhos e herdeiros de Deus. É o desenvolvimento gradual e progressivo das potências da alma, através do exercício do amor e do conhecimento da verdade, verdade relativa ao nosso estado evolutivo, ou seja, das leis que regem nossas vidas e principalmente do  "conhecimento de si mesmo". A Pedagogia Espírita representa o retorno do AMOR e da VERDADE UNIVERSAL ao cenário pedagógico da humanidade através da coragem de expressar essa verdade sem preconceitos, sem meias verdades, como fez Eurípedes Barsanulfo.

O Consolador: Foi a experiência com os Encontros Anuais para formação de Evangelizadores, em Araras, que culminou com o lançamento da Revista Pedagógica Espírita?
A idéia de criar a Revista Pedagógica Espírita, bem como o site http://www.pedagogiaespirita.net.br/,  nasceu em Nova York, por ocasião de nossa viagem aos Estados Unidos, num ciclo de seminários e palestras sobre Educação Espírita. Por isso, o site ou portal Pedagogia Espírita tem caráter internacional. Hoje, a Revista Pedagógica Espírita conta com colaboradores de várias partes do mundo, Estados Unidos, Brasil e vários países da Europa.

O Consolador: De onde surgiu a iniciativa dos já tradicionais Encontros de Evangelizadores, em Araras, sempre realizados durante os feriados de carnaval?
O Encontro no período do carnaval começou há 23 anos, devido a necessidade de preparar evangelizadores em nossa região. Nos primeiros anos atendia apenas a região de São Paulo, depois estendeu-se a todo o Brasil e a alguns confrades de outros países.

O Consolador: Os sites vinculados à publicação que estréia já estão ativos? Cite-os por favor e apresente um resumo deles.
Nascido em Nova York, o site http://www.pedagogiaespirita.net.br/  tem o objetivo de auxiliar os educadores espíritas, em especial os evangelizadores. Consta de vários itens como: 1. Revista Pedagógica Espírita; 2. Escola Virtual, com cursos on-line gratuitos; 3. Evangelização, com link para o site abaixo; 4. Escola Espírita, correspondendo a estudos sobre a aplicação pedagógica em uma escola genuinamente espírita e 5. TV Educar - uma TV pela internet voltada para a educação que deverá ser ativada apenas em meados deste ano. O site http://www.pedagogiaespirita.net.br/ é voltado para auxiliar o trabalho do evangelizador espírita.

O Consolador: Como são organizados os encontros anuais em Araras? Qual o critério e quais as didáticas aplicados?
Os encontros são organizados por uma equipe pedagógica e visa oferecer embasamento teórico e subsídios para a prática pedagógica na Evangelização, bem como oficinas de artes: música, teatro, dança, artes plásticas e literatura infantil.

O Consolador: Como você tem visto pelo país a aplicação da pedagogia espírita nas instituições?
A nosso ver, a Doutrina Espírita tem um caráter eminentemente pedagógico. Ao apresentar o homem como um Espírito em um processo evolutivo, num constante "vir-a-ser", desenvolvendo gradualmente as potências da alma, o "germe da perfeição" ou o Reino a que se referiu Jesus, a Doutrina Espírita se torna um roteiro pedagógico para toda a humanidade. Faz renascer o Evangelho de Jesus em toda a sua pureza primitiva, como bem citado por Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, e, ao mesmo tempo, oferece novos conhecimentos que Jesus, como Mestre por excelência, não poderia naquela ocasião ensinar, devido ao grau evolutivo dos "alunos" da época. Nesse sentido, a Pedagogia Espírita está presente hoje na mente e no coração dos educadores espíritas, sejam professores, evangelizadores ou pais. Está presente nos jovens e adultos que labutam na evangelização infanto-juvenil, que palestram nas Casas Espíritas, que participam dos grupos de estudos, nas atividades assistenciais exercitando e exemplificando o amor ao próximo.   

O Consolador: Uma das grandes dificuldades do movimento espírita tem sido o preparo – ou o despreparo – de trabalhadores nessa área (infância e mocidade), especialmente o desinteresse de muitos dirigentes para a essencial questão. Como vencer isso?
O progresso se faz lentamente, mas está ocorrendo. Exatamente por não ser elitista, a pedagogia espírita amplia seus estudos em todos os campos do saber humano. Mas hoje é urgente investir na Casa Espírita, auxiliando o preparo psicopedagógico dos trabalhadores, não só da infância e juventude, mas de todas as áreas.  A Casa Espírita representa hoje a Escola Espírita em toda a sua simplicidade, beleza e dinamismo, oferecendo as bases para a construção do conhecimento dentro de cada um, da divulgação da VERDADE UNIVERSAL, ou seja, desse conhecimento que liberta a alma de preconceitos e dogmas e, ao mesmo tempo, incentiva a prática do AMOR.  

O Consolador: Qual a melhor dica para prender a atenção da criança e transmitir o ensino espírita?
A educação, em seu aspecto global, não se limita ao ensino espírita. O conhecimento é necessário e indispensável, mas não suficiente. A Educação do Espírito tem como objetivo o desenvolvimento integral do Espírito, as potências da alma, em todos os aspectos,  intelectual (aspecto cognitivo),  moral e afetivo (aspecto afetivo) e na vontade (aspecto volitivo). O próprio conhecimento que a Doutrina Espírita oferece, de forma clara, dentro da estrutura deixada por Allan Kardec, a partir de O Livro dos Espíritos, é tremendamente atrativo para as crianças e especialmente para os jovens. Temas como reencarnação, imortalidade da alma, lei de causa e efeito, pululam por toda parte, nos filmes, documentários e até mesmo nas novelas da televisão. 
A Casa Espírita tem, pois, o objetivo de esclarecer, de tirar dúvidas e oferecer esse conhecimento de forma autêntica e profunda, através das obras de Kardec e demais obras espíritas, psicografadas ou não. Mas a criança, o jovem e todos nós aprendemos vivenciando, em seu aspecto intelectual, afetivo e volitivo. Deve-se trabalhar o "querer", o sentimento e o intelecto, de forma integrada. Vemos isso em Pestalozzi quando afirma que a criança deve ser estimulada na inteligência, no sentimento e nos sentidos (método intuitivo). Alias, é de Pestalozzi a melhor definição de educação, que pode muito bem ser utilizada por todos nós:  a educação é "o desenvolvimento natural, progressivo e harmonioso de todos os poderes e faculdades do ser".

O Consolador: Qual a importância da arte (música, teatro, dança, artes plásticas e atividades pedagógicas) na educação do Espírito?
A arte exerce enorme influência tanto no aspecto afetivo como no aspecto volitivo. Como atividade criadora por excelência, vem ao encontro das necessidades de movimento, expansão e ação das crianças, jovens e adultos. Não apenas ação motora, mas os movimentos intensos da própria alma na expansão profunda do sentir e do querer. À Educação Espírita cabe a tarefa de conduzir essa criatividade para os canais superiores da vida.

O Consolador: Para quem está distante e não tem oportunidade ou recurso para participar de eventos de preparo e reciclagem como os realizados em Araras, mas possui dentro de si muito amor e boa vontade, que recursos você indica para tornar as aulas agradáveis e atraentes?
Sugerimos acessar o site http://www.pedagogiaespirita.net.br/, no qual são ministrados alguns cursos gratuitamente. O participante poderá também participar da lista pedagogia espírita, ampliando assim, através de trocas de idéias, estudos e prática, a sua visão da educação em seu aspecto integral: a educação do Espírito.

O Consolador: Para quem quiser assinar a revista, quais os contatos? Ela é uma publicação voltada para a prática pedagógica, como indica seu título?
Ela é voltada tanto para a teoria como para a prática. A assinatura poderá ser feita no site http://www.pedagogiaespirita.net.br/

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Raul Teixeira - Programa Vida e Valores - Perturbações religiosas parte 1

Raul Teixeira é Orador Espírita. Natural da cidade de Niterói-RJ, é licenciado em Física pela Universidade Federal Fluminense, tem Mestrado e Doutorado em Educação pela UNESP. É Professor da Universidade Federal Fluminense, em Niterói e Membro das Comissões de Avaliação Institucional do MEC - Ministério de Educação e Cultura.

Por que adoecemos?

Programa nº 63, entrevista com Orson Peter Carrara, assista ao Programa Transição:

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Entrevista com Hermínio C. Miranda

Esta entrevista foi publicada originalmente na Folha Espírita, e no Boletim GEAE n. 460, de 29 de julho de 2003.

FE: Quando e como foi que o senhor fez sua opção pelo Espiritismo?
Hermínio Miranda: Não fui levado ao Espiritismo por crise existencial ou sofrimento, mas pela insatisfação com os modelos religiosos à minha opção. Alguém – mergulhado em transe anímico regressivo – me diria mais tarde que eu não aceitava tais propostas porque, de alguma forma que não me foi explicado, eu sabia que ali não estava a verdade que eu buscava. Essa atitude de reserva e até de rejeição contribuiu, acho eu, para retardar minha descoberta da realidade espiritual.
Um episódio irrelevante em minha vida desencadeou o processo. Eu quis, no entanto, entrar pela porta da frente. Consultei, para isso, um amigo de minha inteira confiança e ele me indicou com primeira leitura os livros da Codificação. Acrescentou os nomes de Gabriel Delanne e de Léon Denis e me disse, como que profeticamente: “Daí em diante, você irá sozinho”.
A surpresa começou com O Livro dos Espíritos. Inexplicavelmente, eu tinha a impressão de haver lido aquele livro antes, mas onde, quando? Antecipava na mente o conteúdo de numerosas respostas . Anos depois, ficaria sabendo que outras pessoas viveram experiência semelhante, entre elas, o respeitável e amado dr. Bezerra de Menezes.

FE: Desde quando o senhor escreve sobre o Espiritismo?
Hermínio Miranda: Comecei a escrever regularmente para o “Reformador e, em seguida, para outras publicações doutrinárias. Permaneci como colaborador assíduo do órgão oficial da FEB até 1980. Meus textos eram assinados nessa primeira fase, com as iniciais HCM. Posteriormente, o amigo dr. Wantuil de Freitas, presidente da FEB, me pediu que arranjasse um pseudônimo para evitar que dois ou mais artigos saíssem com o mesmo nome em um só número da revista. Foi assim que “nasceu” “João Marcus”.
A partir de 1976 começaram a sair os livros. Diálogo com as sombras foi o primeiro. Para alegria minha, foi bem recebido

FE: O senhor tem hoje quase 40 livros publicados. Como analisa sua obra? 

Hermínio Miranda: Costumo dizer que boa parte de meus livros é voltada para o meio espírita. Diálogo com as sombras, Diversidade dos Carismas, bem como a série sob o título genérico Histórias que os espíritos contaram” são exemplos desse tipo de livro que dificilmente leitor e leitora não-espírita tomariam para ler. Sempre achei, contudo, de meu dever escrever livros que, sem excluir o leitor espírita, pudessem interessar também o leitor não-espírita. Estão nesse caso, A memória e o tempo, Alquimia da Mente, Autismo – uma leitura espiritual, Nossos filhos são espíritos, Condomínio espiritual e As mil faces da realidade espiritual. Parece que o plano deu certo, pois essas obras atendem a dois objetivos: o de mandar nosso recado para além das fronteiras espíritas e, ao mesmo tempo, abordar assuntos não especificamente espírita com enfoque doutrinário, sem contudo, fazer pregação ou com intuito meramente arregimentador. Na minha opinião, a gente deve ir ao Espiritismo se e quando quiser e por suas próprias pernas, ou seja, sem ser “arrastado”.

FE: O senhor tem idéia de quantos exemplares de seus livros foram vendidos até agora?
Hermínio Miranda: A repórter de uma grande revista semanal brasileira me fez, há tempos, essa mesma pergunta e muito se admirou por não ter eu condições de respondê-la. Continuo sem saber. Cheguei a tentar, mas não obtive a informação desejada. A razão disso está, em parte, no fato de que os direitos autorais da grande maioria de meus livros são doados a diversas instituições, como à FEB, ao Lar Emmanuel, do Correio Fraterno do ABC, a OCaminho da Redenção (Divaldo), ao Centro Espírita “Amantes da Pobreza, de “O clarim, ao Centro Espírita Léon Denis. Com os rendimentos auferidos pelos livros publicados pela Lachâtre mantemos nosso próprio serviço social numa favela do Rio de Janeiro.

FE: E quais os de sua preferência?
Hermínio Miranda: Creio ser difícil para qualquer autor dizer de que livro ou livros gosta mais. É como perguntar a um pai ou mãe, qual ou quais os filhos e filhas de suas preferências. Penso que a gente gosta de todos por motivos diferentes. Tanto quanto é possível considerar minha obra com um mínimo de objetividade e isenção, gosto de Nossos filhos são espíritos, pela surpreendente aceitação que encontrou dentro e fora do movimento espírita, o que também aconteceu com Autismo – uma leitura espiritual. Livros como Cristianismo – a mensagem esquecida, As marcas do Cristo, O evangelho gnóstico de Tomé, Os cátaros e a heresia católica, pela forte ligação emocional que tenho com a temática do cristianismo primitivo. Sobre as explorações intelectuais em território fronteiriço com o do Espiritismo, citaria A memória e o tempo, Alquimia da Mente e, novamente, por motivação diferente da anterior, Autismo – uma leitura espiritual.
Como se vê, isto não é propriamente uma lista de preferências, mas uma análise de cada grupo de livros, classificados por assuntos de minha preferência. Sobre a qualidade e o conteúdo dos livros, no entanto, prefiro que fale o público leitor.

FE: Além de seus próprios livros, o senhor tem feito algumas traduções. Qual o critério adotado na seleção das obras traduzidas?
Hermínio Miranda: Tenho dito que prefiro escrever meus próprios livros do que traduzir os alheios. É verdade, mas, às vezes, me vejo envolvido numa tradução motivado por fatores que diria imponderáveis, circunstanciais ou subjetivos. Não sei definir os critérios que me levaram a esse envolvimento. Cada caso é um caso.

FE: O que pensa o senhor do Espiritismo na sua interação com o mundo contemporâneo?
Hermínio Miranda: Prefiro reformular a pergunta: O que se pode dizer acerca da interação da realidade espiritual com o mundo contemporâneo? Isso porque, no meu entender, não há uma rejeição ou indiferença em relação ao Espiritismo especificamente, mas à realidade que a Doutrina dos Espíritos ordenou e colocou com simplicidade e elegância. O Espiritismo continua sendo um movimento minoritário, até mesmo no Brasil, justamente considerado o país mais espírita do mundo. Como se percebe, a massa maior das pessoas ainda prefere uma das numerosas religiões institucionalizadas e tradicionais. Ou a aparente liberdade que proporcionaria a descrença, que não tem compromisso com coisa alguma senão com a própria negação. O que, no fundo, e também uma crença (na descrença).

FE: O senhor tem algum projeto literário em andamento?
Hermínio Miranda: Acho que projetos o escritor sempre os tem. Eu também; talvez mais do que deveria ou poderia ter. No momento, traduzo The sorry tale, discutido livro mediúnico da autora espiritual que se identificou como Patience Worth, ao escrevê-lo através da médium americana conhecida como Sra. Curran, a partir de 1918. Além de ser um fenômeno literário, a história se passa no tempo do Cristo, da noite em que ele nasceu até o dia em que foi crucificado. É espantoso o conhecimento que a autora espiritual revela da época: a geopolítica, os costumes, a sociologia, a religião, a história e tudo o mais. O tratamento respeitoso e amoroso que ela dá à figura de Jesus é comovente. O livro é considerado um fenômeno exatamente por esse grau de erudição histórica e pelo fato de ter sido escrito num inglês um tanto arcaico, o elizabetano do século 17, que faz lembrar Shakespeare e, por isso mesmo, um desafio para o tradutor. A entidade justifica essa linguagem arcaica exatamente para provar que a obra não era da médium, uma jovem senhora dotada de escassos conhecimentos.

FE: Como o senhor escolhe os temas que desenvolve em seus livros, considerando-se a variedade dos assuntos neles abordados?
Hermínio Miranda: Outra pergunta para a qual não tenho resposta objetiva. Às vezes (Ou sempre?) me fica a impressão de que não fui eu que escolhi os temas; eles é que me escolheram.

FE: Seu livro mais recente – Os cátaros e a heresia católica – aborda uma doutrina medieval bastante parecida com o Espiritismo. Diga-nos algo sobre isso.
Hermínio Miranda: O estudo sobre os cátaros esteve em minha agenda cerca de 25 anos. Até que chegou o momento em que a própria obra “entendeu” que chegara a hora de ser escrita. Em parte, porque o tema exigia extensas e aprofundadas pesquisas na historiografia especializada francesa. Além disso, procurei sempre obedecer nos meus estudos uma escala de prioridades.
Não há dúvida de que o catarismo foi um dos mais convincentes precursores do Espiritismo. Antes dele, o mais promissor e bem articulado foi o movimento gnóstico. A inteligente doutrina cátara foi elaborada a partir do Evangelho de João, de Atos dos Apóstolos e das Epístolas, principalmente as de Paulo. Tive algumas surpresas como a de encontrar referências ao Consolador, que, com tanto relevo figura na Doutrina dos Espíritos. E mais: reencarnação, comunicabilidade entre as duas faces da vida, o despojamento dos cultos, sem rituais e sem sacramentos a não ser o do “consolamentum”. Seu propósito era o de um retorno à pureza original do cristianismo. E por isso, morreram nas fogueiras da Inquisição.

FE: O senhor tem obras não-espíritas publicadas?
Hermínio Miranda: No início de minha atividade literária, na distante mocidade, escrevi alguma ficção. Nada de que me possa orgulhar, ainda que tenha sido premiado em concursos literários e ter tido acesso a importantes publicações brasileiras. Um desses escritos mereceu crítica bastante lisonjeira de significativos escritores como Eloy Pontes (O Globo), Monteiro Lobato e o temido e respeitado Agripino Griecco (estes dois em cartas ao autor). Logo compreendi, contudo, que meu caminho não passava por ali, embora o instrumento de trabalho – a palavra escrita – fosse o mesmo.

FE: Sabe-se de sua limitada atividade como orador, expositor, palestrante ou conferencista. Por que isso?
Herminio Miranda: Considero-me orador medíocre. E nem me esforcei em desenvolver esse improvável talento, por duas razões: Primeira – sempre sonhei e desejei tornar-me escritor. Sinto-me à vontade com as letras. Segundo – que, no meu entender, não faltam bons oradores, expositores e conferencistas no meio espírita. Eu nada teria a acrescentar ao excelente trabalho que eles e elas têm feito nesse sentido.

FE: Como tem sido sua atividade em grupos mediúnicos?
Hermínio Miranda: Durante quase 40 anos participei de trabalhos mediúnicos em pequenos grupos. A parte mais importante de minha obra surgiu da experiência adquirida nessa tarefa. Sou grato aos amigos espirituais que guiaram meus passos nessa nobre e difícil atividade, bem como aos companheiros encarnados – médiuns e demais participantes – e às numerosas entidades com as quais dialogamos no correr de todo esse tempo. Costumo dizer com toda sinceridade e convicção que muito mais aprendi com os chamados “obsessores” do que lhes ensinei, se é que o fiz.

FE: Dispomos hoje de computadores, Internet, e-mail e outras tecnologias destinadas a facilitar a pesquisa. De que forma o senhor deu conta de seu trabalho sem o aparato de hoje?
Hermínio Miranda: O computador me tem sido valioso instrumento de trabalho. Não tanto nas pesquisas, mas na tarefa mesma de escrever. No tempo da falecida máquina de escrever, os textos eram penosamente datilografados, corrigidos à mão ou na própria máquina e posteriormente passados a limpo, duas ou três vezes.
Não uso muito a Internet para pesquisa, a não ser quando se torna necessária alguma informação adicional especializada. Ou quando à cata de livros. Isso porque, no meu entender, nada substitui o livro como objeto de estudo, consulta e citação. Obras como as que escrevi sobre o autismo, por exemplo, ou sobre os cátaros ou Alquimia da mente, exigiram preparo maior que só uma boa bibliografia em várias línguas poderia suprir. Em suma, por mais que os entendidos da informática desaprovem, o computador é, para mim, uma excelente e sofisticada máquina de escrever.

FE: Qual deve ser a postura espírita diante da antiga dicotomia e até confronto entre religião e ciência?
Hermínio Miranda: De serenidade e confiança. Não há o que temer. Ao lado de cientistas que têm procurado minimizar ou até demolir aspectos fundamentais da realidade espiritual, temos também, outros tantos que produziram e continuam a produzir impressionante volume de trabalhos científicos que demonstram a validade do modelo adotado pela Doutrina dos Espíritos. Dizem nossos amigos advogados, que o ônus da prova cabe a quem acusa. Que se prove, então, que essa realidade é uma balela ou uma fantasia. Kardec teve a corajosa serenidade de ensinar que a Doutrina teria de estar preparada até para mudar naquilo que fosse demonstrado estar em erro. O que não aconteceu em quase século e meio. Deixou igualmente claro que o Espiritismo é uma doutrina evolutiva e, portanto, aberta e atenta a todos os ramos do conhecimento. Ou seja, não deve deixar-se congelar dentro de um rígido modelo ou procedimento que o isole do que se passa “lá fora” de seu território ideológico.

FE: Assuntos como clonagem, que vêm ganhando espaço na mídia, devem ser tratados pelos espíritas?
Hermínio Miranda: Não tenho dúvidas de que a temática da clonagem nos interessa para estudo e tomada de posição, mesmo porque perguntas sobre esse fenômeno estão sendo dirigidas a nós. “O que você acha disso?” – perguntam-nos.
Em artigo intitulado “Xerox de gente” (“Reformador”, julho de 1980) cuidei do assunto, bem como, em outras oportunidades, da criogenia e do transplante. Este, por exemplo, foi tema proposto por Deolindo Amorim, em estudo, do qual participei, no Instituto de Cultura Espírita.
Antes disso, em dois artigos intitulados “O homem artificial”, publicados no antigo “Diário de Notícias”, do Rio, entendia eu o seguinte, em conclusão “...o que se chama um tanto pomposamente de criação do homem em laboratório, se reduz, a uma análise fria do problema, à criação de condições materiais à atuação de um espírito reencarnante.” (Ver De Kennedy ao homem artificial, de Luciano dos Anjos e meu, FEB 1975, p. 285).
O problema, portanto, situa-se no açodamento irresponsável de interferir nos mecanismos naturais testados, aprovados e consolidados ao longo dos milênios. Irresponsável porque não estão sendo levados em conta os aspectos éticos necessariamente envolvidos em tais pesquisas. Pensa-se, por exemplo, em criar com a clonagem, um “estoque” de “peças de sobressalentes” destinadas a repor as que se desgastarem pelo uso e abuso praticados no corpo da pessoa que forneceu o material genético.
A técnica de congelar cadáveres – criogenia – parte do pressuposto de que a ciência venha a desenvolver no futuro, procedimentos e medicamentos capazes de curar as mazelas de que morreram as pessoas. E os espíritos? “Onde” ficam? Sob que condições? Até quando? Disso, ninguém cuida, pois a entidade espiritual acoplada àquele corpo é totalmente ignorada. Por ignorância mesmo, aquela que não sabe e não quer saber, por mais cultos que sejam os que realizam tais experimentações.
Sobre esse tema, escrevi, ainda, há cerca de 30 anos – não tenho, no momento, como precisar a data – um artigo intitulado “Uma ética para a genética”—uma espécie de pressentimento sobre o que estamos agora testemunhando.
Em resumo: os espíritas devem, sim, acompanhar a movimentação de idéias, fatos, estudos e pesquisas, no mínimo para se informarem do que se passa e para que continuem confiando nas estruturas doutrinárias que adotaram.

FE: Gostaríamos que falasse sobre Chico Xavier e seu papel no contexto espírita.
Hermínio Miranda: Não há muito que dizer. Chico é uma unanimidade. Portou-se com bravura e digna humildade. Anulou-se como pessoa humana, para que por ele falassem seus numerosos amigos espirituais. Não há dúvida de que ampliou os horizontes desvelados pela Doutrina dos Espíritos, sem por em questionamento nenhum de seus princípios básicos; pelo contrário, os confirmou, sempre olhando para frente. O trabalho que nos chegou através dele demonstra que se pode expandir os horizontes da Doutrina dos Espíritos sem a mutilar.

FE: Que acha o senhor do movimento espírita brasileiro? Vai bem?
Hermínio Miranda: Não me considero com autoridade suficiente para uma avaliação do movimento espírita. Por contingências profissionais, não me foi possível participar dele como o desejaria, mas não apenas por isso. Tive de fazer uma opção e toda opção tem certo componente limitador, porque exclui outras. Minha prioridade era escrever. Isso tem sido uma espécie de compulsão, por ser, creio eu, a principal tarefa que me teria sido confiada ao me reencarnar. E para escrever, você precisa ler, ler muito, estudar, pesquisar, meditar, organizar suas idéias e expô-las de modo consistente. Não me teria sido possível fazer tudo isso em adição ao intenso trabalho profissional e às tarefas que, porventura, me fossem confiadas no movimento.

FE: Os princípios básicos da Doutrina Espírita já eram conhecidos na Antiguidade. Quais as civilizações que mais contribuíram para a formação desse patrimônio cultural?
Hermínio Miranda: A pergunta é muito ampla para as limitações de uma simples entrevista. É certo, porém, que os fenômenos de que se ocupa a doutrina são tão antigos quanto o ser humano. O aspecto que me parece mais relevante, neste caso, é o de que a realidade espiritual sobre a qual se assenta a Doutrina dos Espíritos já estava contida nos ensinamentos de Jesus e foi ele próprio que dirigiu a equipe que trabalhou com Kardec.

FE: Como o senhor considera o papel de Allan Kardec na elaboração dos livros básicos da Codificação?
Hermínio Miranda: Seria ocioso repetir o que já sabemos. O papel dele foi fundamental na elaboração dos livros básicos. Sua percepção da relevância do que estava acontecendo com as mesas girantes, sua capacidade para ordenar todo o material que lhe foi entregue, digamos, em estado bruto, em simples cadernos de anotações e a sensibilidade para formular suas perguntas dentro de um esquema racional e seqüencial, evidenciam o acerto de sua escolha para delicada tarefa.

FE: Fala-se e se escreve muito no meio espírita sobre os três aspectos da Doutrina dos Espíritos. Qual a sua posição nessa questão?
Hermínio Miranda: Não me sinto atraído por debates ou polêmicas, como o que às vezes se armam em torno de questões como essa. Está claro, para mim, que o Espiritismo tem sua vertente filosófica, a científica e a religiosa. Ao falar sobre isso, tenho em mente Religião com maiúscula; com todo o respeito devido, não me refiro às várias denominações cristãs contemporâneas. Mesmo porque o Cristo não fundou religião alguma – ele se limitou a pregar e exemplificar uma doutrina de comportamento, ou seja, como deve o ser humano portar-se perante o mundo, a vida, seus semelhantes e, em última análise, diante de si mesmo e da divindade. Ao que sabemos, jamais o Cristo cogitou de saber se sua doutrina devia ou não ser caracterizada como religião. E, no entanto, é religião, no seu mais puro e amplo sentido, de vez que cuida de nossa relação com as leis divinas. Minha opção prioritária, por assim entender, é pelo aspecto religioso do Espiritismo, sem, contudo, ignorar ou minimizar os demais. Nada tenho e nem poderia ter, contra os que pensam de modo diferente. Não vejo como nem por que disputar coisas como essa. Tenho eu de desprezar, combater, hostilizar, odiar e até eliminar aquele que não pensa exatamente como eu?
Se você prefere cuidar do vetor científico ou do filosófico, tudo bem.
Solicitado, certa ocasião, a um pronunciamento dessa natureza, entreguei pessoalmente ao eminente e saudoso companheiro dr. Freitas Nobre, um pequeno texto sob o título “Problema inexistente”, que ele mandou publicar em “Folha Espírita”. Por que e para quê todo esse debate? Começa que a posição a ser assumida ante o problema depende da conceituação preliminar do que se entende por religião. De que tipo de religião estaríamos falando?

FE: Como o senhor situa o pensamento do Cristo no contexto da Doutrina Espírita?
Hermínio Miranda: Kardec sabia muito bem o que fazia ao adotar a moral do Cristo. Afinal de contas e, ainda repercutindo a temática da pergunta anterior, o Espiritismo nos pede mais, em termos de comportamento e reforma íntima, do que a ciência e a filosofia. Há quem me considere místico, mas o rótulo não me incomoda; ao contrário, acho-o honroso e o aceito assumidamente. Não consigo imaginar minha vida – e a vida, em geral – sem os ensinamentos do Cristo. Como sou um obstinado questionador, tenho, pelo menos, duas perguntas a formular: “Que é ser místico?” E, antes dessa: “O que é misticismo?” Um amigo meu, muito querido, costumava dizer-me isso, naturalmente, sem a mínima conotação crítica, como quem apenas enuncia um fato. Regressou antes de mim ao mundo espiritual. Passado algum tempo, manifestou-se em nosso grupo mediúnico e entre outras coisas, me disse: “Você é que estava certo.”

FE: Qual é a sua formação profissional?
Hermínio Miranda: Minha formação profissional é em Ciências Contábeis, função que exerci na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, a partir de 1948, em Nova York (entre 1950 e o final de 1954) e, posteriormente, no Rio de Janeiro, de 1957 a 1980, quando me aposentei. Devo acrescentar que no decorrer dos últimos 22 anos, estive sempre no exercício de cargos executivos no primeiro escalão da empresa ou no segundo.

FE: Deixamo-lo à vontade para algo mais que queira acrescentar.
Hermínio Miranda: Certa vez fui convidado por uma freira, amiga da família, para um encontro com seus alunos de teologia numa universidade brasileira. No dia e hora marcados, lá estava eu. Ela é doutora em teologia e sabia, naturalmente, de minhas convicções, e foi por isso mesmo que me convidou, concedendo-me oportunidade de verificar o quanto sua mente é arejada e despreconceituosa. Perguntei-lhe sobre o que ela desejava que eu falasse. Ela propôs dois pontos: a reencarnação e como o Espiritismo considerava a figura de Jesus. Dito isso, foi sentar-se modestamente entre seus alunos e, como eles e elas, formulou várias perguntas. Passamos ali, umas duas horas numa conversa fraterna, animada e desarmada.
Digo que ela escolheu bem os temas, porque, na minha maneira de ver, a reencarnação é o cimento que mantém os diversos aspectos da realidade espiritual consolidados num só bloco. Uma vez admitida a reencarnação, tudo o mais se encaixa no seu lugar com precisão milimétrica. Isso porque, sendo como é uma realidade por si mesma, uma lei natural e não objeto de crença ou de fé, a reencarnação pressupõe existência, preexistência e sobrevivência do ser à morte corporal, bem como a lei de causa e efeito, que regulamenta nossas responsabilidades perante a vida. Mais: a reencarnação exclui do modelo dito religioso, qualquer possibilidade ou necessidade de céu, inferno ou purgatório como “locais” onde se gozam as benesses da vida póstuma ou se sofrem as conseqüências de erros e equívocos cometidos. Do ponto de vista da teologia dita cristã contemporânea, portanto, a reencarnação é uma doutrina subversiva, no sentido de que desmonta todo um sistema teórico de idéias e conceitos tidos por irremovíveis.
Quanto ao Cristo, não há o que discutir, é a mais elevada entidade que passou pela terra.
Acho que a ilustrada irmã gostou da minha fala, dado que algum tempo depois, me convidou novamente, desta vez para falar a um grupo de sacerdotes católicos já ordenados e seminaristas em final de curso. Que também foi uma conversa amena, fraterna e franca.

sábado, 30 de outubro de 2010

Música e magnetismo: com Jacob Melo

Entrevista publicada na Revista Cristã de Espiritimo, edição especial nº 2, escrito por Érika Silveira  
O músico e pesquisador espírita Jacob Melo fala sobre o papel da música e a função dos passes energéticos no processo de cura.
Além de músico e integrante do Grupo Seres Imortais, grupo que está na capa da Revista Cristã de Espiritismo Especial – Música, edição nº 02, o médium Jacob Melo é um profundo pesquisador e escritor do movimento espírita. Recentemente, lançou o livro Cure-se e cure pelos Passes, que fala das técnicas do magnetismo como um método de cura, muito utilizadas nos centros espíritas.
Jacob, que mora em Natal (RN), esteve em São Paulo no mês de setembro para fazer diversas palestras na capital e na região do Grande ABC. Aproveitamos sua presença para fazermos uma entrevista para o programa Realidade Espírita, produzido pela Revista Cristã de Espiritismo e transmitido pela Rádio Mundial AM (no ano de 2002), onde ele fala sobre o papel da música e, principalmente, do passe no processo de cura espiritual.


Qual é a proposta do Grupo Seres Imortais?
Jacob Melo – Nosso trabalho musical visa o espírito de alegria e confraternização, ao contrário do que muitas pessoas que não conhecem a doutrina de perto pensam às vezes, ou seja, que Espiritismo significa cara fechada e pessoas sisudas. E não é nada disso! Na realidade, o movimento espírita é extremamente feliz, como, por exemplo, a música escolhida para a revista de música, “A Vida é Alegre”, que traz essa proposta.

Em sua opinião, a música tem alguma ligação com a cura espiritual? 
Jacob Melo – Há uma ligação extremamente profunda e muita viva. Nós podemos inclusive dar um testemunho sobre o que ocorreu em umas das palestras feitas em São Bernardo do Campo (SP). Ao final do evento, nós tocamos três musicas do CD e, mesmo sendo desconhecidas do público, todos cantaram juntos. Na última música que colocamos, chamada “A maior história de amor”, formou-se um clima extremamente delicado, todos ficaram envolvidos. Isso é um fenômeno fantástico que a música propicia. Um outro fato curioso que aconteceu foi quando estávamos participando de um evento em Campinas (SP) e, no final desse seminário, a presidência do evento convidou um expositor da Bahia, chamado Marcel Mariano, para fazer a prece de encerramento. O auditório estava lotado, com cerca de 600 pessoas. Ele tomou o microfone e começou a cantar uma bela canção de Roberto Carlos, foram cinco minutos de profundo silêncio, o que criou um clima maravilhoso. Então, se a música for bem empregada, ela também é um veículo de cura.

O que você pode nos falar sobre o magnetismo transmitido através do passe? 
Jacob Melo – O Espiritismo tem a glória de tratar o magnetismo e o passe com muita constância e profundidade, o que não quer dizer que cabe apenas ao Espiritismo a veiculação dos fluidos pelos passes. Porque todas vezes que oramos e vibramos por alguém ou abraçamos com afeto e respeito, independentemente do principio religioso, nós estamos, nessas circunstâncias, emitindo fluidos revigorantes na direção delas. O passe, dentro da visão espírita, toma uma característica de maior profundidade apenas porque nós estudamos mais, fomos até a origem buscar as razões de certos movimentos e como melhorar a eficiência dessas técnicas. O fato de nós, espíritas, procurarmos ter um pouco mais de estudo, além da certeza da eficiência da presença dos espíritos, de certa forma torna nossa realização através dos passes muito mais efetiva. Quando Allan Kardec perguntou “e se os magnetizadores acreditassem nos espíritos, o que aconteceria?”, os espíritos responderam que “operariam verdadeiros milagres”. Nós estamos bem cientes dessa vertente e acreditamos que, quando operamos com sabedoria e contando com a participação dos espíritos, não necessariamente dos espíritos espíritas, nosso passe só tem a crescer em qualidade.

Podemos perceber que outras religiões trabalham com o passe, muitas vezes até de uma forma inconsciente, como, por exemplo, os evangélicos, quando os pastores estendem suas mãos sobre os fiéis, o que também pode ser entendido com uma forma de passe. Desta forma, o que conta é o sentimento, não é mesmo? 
Jacob Melo – Sem dúvida! Em qualquer campo de teoria, quando se tem o amor, ele se sobrepõe, não adianta ter toda a técnica e conhecimento. Ele não é só o veículo, mas a essência, a técnica apenas ajuda a extrair os melhores efeitos dessa aplicação de amor. Sendo assim, todos nós estamos vibrando e todas as igrejas também, assim como o reiki, atualmente muito em voga, é uma técnica de magnetismo. Jesus mesmo falava sobre as imposições de mãos nas curas. A aplicação do magnetismo não aconteceu só na época de Cristo para cá, mas muito antes, lá no antigo Egito, temos os registros, porque isso é uma bênção de Deus para as criaturas. Todos nós podemos usá-lo, mas é claro que, se soubermos o que estamos fazendo, nós enriquecemos o processo.

De que maneira o magnetismo é capaz de curar? 
Jacob Melo – São duas fontes: uma carente, outra farta. É como quando você quer tomar banho: você tem a torneira, o encanamento e a água na caixa, só vai precisar abrir as comportas para que ela possa cair. A mesma coisa acontece no passe. Normalmente, nós temos uma pessoa que está carente, seja de ordem orgânica ou espiritual, e o médium ou o mundo espiritual são seres que podem oferecer o que essa pessoa está precisando. Assim, abre-se a torneira, não importa a fonte, do plano espiritual ou de alguém capaz de doar o que chamamos de magnetismo.

Além do trabalho do passista, é necessário que a pessoa que procura o tratamento tenha fé?
Jacob Melo – A proposta de Jesus foi muita clara: “Vai, filho, tua fé te curou”. Mas nós sabemos que ele curou também os que não tinham fé, como no caso do cego de nascença, quando o mestre disse: “Pronto, estás curado”. Depois que Ele passou as mãos sobre os olhos e perguntou ao homem o que estava vendo, este respondeu: “Vejo o homem como se árvores fossem”. Quer dizer, a incredulidade era tão grande que não queria assumir que estava vendo criaturas. Jesus então cuspiu na lama e a passou sobre seus olhos, mandou que ele tomasse banho e o cego respondeu ainda: “Eu não vim, me trouxeram”. Ou seja, o nível de fé era zero, provando que, mesmo sem ela, a cura também acontece, porém, dá muito mais trabalho para se curar.

Existem doenças que têm processos mais profundos, em que as causas estão no passado e que, muitas vezes, geram distúrbios psíquicos. São casos nos quais só o passe não resolve e que talvez não ocorra a cura por ser parte do processo reencarnatório da pessoa. Como o médium que percebe isso deve lidar com o fato? 
Jacob Melo – O primeiro principio é o da honestidade. Muitas vezes, nós nos precipitamos, dizendo a essa pessoa que tome um passe que logo irá ficar boa e ficamos só nisso, o que é um equívoco muito grande, pois sabemos que há necessidade de uma reforma íntima. O passe entra como um complemento, é aquela força proposta por Jesus: “Eu irei te dar forças para que tu carregues a tua cruz”. Em nenhum momento Ele disse que iria tomar a cruz de ninguém. Nenhuma religião pode tomar esse direito de te retirar a cruz, mas sim dar condições para a pessoa suportá-la, pois assim ela se torna menos pesada. Se os dirigentes e os médiuns deixarem a questão bem clara, tudo fica mais fácil. Gostaria até mesmo de dar o testemunho do que aconteceu com uma amiga minha. Ela sofre de uma doença extremamente perigosa, um tipo de esclerose degenerativa que comprometeu todas as suas potencialidades orgânicas e, depois de perder praticamente todos os seus movimentos, ela só escreve e com muita dificuldade. Em nossa última conversa, disse-me: “O que eu mais agradeço, que a doença me proporcionou, é a possibilidade de ter tempo para ler, coisa que não tinha antes, além de muitas coisas que não dava valor. Hoje quero viver para aproveitar as oportunidades que estou tendo”. Essa é a verdadeira cura!

domingo, 10 de outubro de 2010

Raul Teixeira aborda o tema Drogas e seus efeitos

No programa Transição nº 100, da Rede TV, Raul Teixeira abordou o tema sob a ótica espírita, de forma muito clara, respondendo a perguntas sobre:
-O uso das drogas
-Os efeitos das drogas para o Corpo Espiritual
-Os efeitos das drogas após a “morte”
-Os efeitos das drogas nas existências futuras
-Influências espirituais nos usuários de drogas
-As terapias das Casas Espíritas

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Entrevista com a Dra. Marlene Nobre, por ocasião de sua visita a Fortaleza-CE, para proferir palestra na IV Semana Chico Xavier, em março deste ano.

A entrevista exclusiva, foi publicada pelo jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza-CE, edição do dia 29/03/2009.
Marlene Nobre fala da convivência com Chico, os rumos do espiritismo, aborto e outros assuntos, em entrevista exclusiva, onde ressalta que as doenças, em sua esmagadora maioria, estão relacionadas às imperfeições da alma e à lei do carma.
Marlene Nobre é médica ginecologista aposentada, especialista em prevenção do câncer uterino. Viúva do político, advogado e professor universitário Freitas Nobre (cearense), ela trabalhou com Chico Xavier nas seções públicas da Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba, Minas Gerais, entre os anos de 1959 e 1962. Preside também a Associação Médico-Espírita do Brasil e a Associação Médico-Espírita Internacional, é editora responsável pelo jornal Folha Espírita e diretora da Creche Lar do Alvorecer. Além disso, escreveu diversos livros, dentre eles “Lições de Sabedoria - entrevistas do médium Chico Xavier”. Marlene Nobre estará em Fortaleza na próxima quinta-feira proferindo uma palestra no auditório da FIC (Água Fria), às 19h, por ocasião da IV Semana Chico Xavier.

Qual a abordagem central de sua palestra “Além desta vida”, que será ministrada na Semana Chico Xavier?
Vou me referir, inicialmente, aos casos de pessoas que passaram pela Experiência de Quase Morte (EQM), ou seja, que estiveram clinicamente mortas e voltaram à vida com o auxílio de aparelhos especiais, relatando tudo o que viram e sentiram durante esse período em que estiveram no limiar da morte. São milhares de pessoas que descreveram aos pesquisadores, em geral médicos e psicólogos, a existência de um corpo mais leve, com o qual se apresentavam em uma outra dimensão, para onde foram, atravessando túneis, e onde puderam encontrar familiares, amigos e mestres de luz, guardando lembrança nítida de tudo quanto viram. Depois de falar sobre essas pesquisas e o que as pessoas viram no limiar da morte, faço a ligação com uma outra pesquisa, feita pela Associação Médico-Espírita de S. Paulo com as mensagens recebidas por Chico Xavier e que foi publicada no livro - A Vida Triunfa - de autoria do meu irmão Paulo Rossi Severino. Ampliei o estudo dessas 45 iniciais para mais de 500 mensagens recebidas por Chico Xavier aos familiares, nas quais os comunicantes não só falam a mesma coisa que os ressuscitados da morte na EQM, como ampliam muito mais a visão da vida no além. De acordo com as descrições deles, falo sobre a travessia deste mundo para outro, as doenças e tratamentos médicos no além, as escolas e atividades, bem como sobre as repercussões espirituais entre encarnados e desencarnados. É de uma riqueza incalculável o legado que Chico Xavier nos deixou. E ao final, uma só certeza: ninguém morre.

Quando começou seu envolvimento com a doutrina espírita?
Sou espírita desde o berço. Aos 11 anos, fiz um pequeno discurso representando a mocidade espírita de S. José do Rio Preto. Mais tarde, quando cursei medicina em Uberaba, envolvi-me mais diretamente com os trabalhos do movimento espírita.

Como ocorreu a aproximação com Chico Xavier?
Em outubro de 1958, às vésperas de mudar-se para Uberaba, o que ocorreu em janeiro de 1959, Chico Xavier esteve em Uberaba e pediu ao Waldo Vieira, meu colega de faculdade, que me levasse até ele, porque precisava conversar comigo. Durante a entrevista, como não o conhecia, apenas havia lido suas obras, fiquei muito admirada com o convite que me fez: o de trabalhar com ele nas sessões públicas da Comunhão Espírita Cristã, a partir de janeiro, quando ele já estaria instalado definitivamente em Uberaba. E foi o que aconteceu. Durante cerca de quatro anos, de janeiro de 1959 a dezembro de 1962, trabalhei com ele, dando minha pequena parcela de contribuição na interpretação dos textos de O Livro dos Espíritos e de O Evangelho Segundo o Espiritismo, obras que eram estudadas nos dias de sessão pública. Mesmo mudando-me para S.Paulo, em 1963, nossa amizade permaneceu sempre a mesma, até a sua desencarnação, em 2002. E perdurará, tenho certeza, pela eternidade, porque somos imortais.

Que trabalhos vocês desenvolveram juntos?
Fazia os comentários sobre as lições da noite, enquanto Chico e Waldo psicografavam receitas e mensagens dos Mentores Espirituais; por minha vez, também recebia mensagens psicográficas nessas reuniões, a convite do Chico. Tínhamos juntos ainda a distribuição de gêneros alimentícios aos mais carentes da periferia de Uberaba aos sábados. Participei também do programa radiofônico - Ondas de Luz, que fazia parte das atividades da Comunhão àquela época.

Há algum fato que tenha lhe marcado durante o tempo de convivência com ele?
Fui profundamente marcada por sua bondade, por sua humildade genuína. Por isso mesmo, reconheço a enorme distância que nos separa do ponto de vista espiritual e a grande responsabilidade que assumi por ter trabalhado com ele e tomado conhecimento de sua obra.

Você chegou a receber mensagens psicografadas dele?
Psicografadas não, mas me deu vários recados de grande precisão através da vidência.

De que forma a doutrina espírita pode ajudar no exercício da medicina?
A contribuição do Espiritismo à medicina é enorme. Primeiramente, ele muda a visão do mundo e do ser humano. Quando o médico espírita examina o paciente, sabe que tem diante de si uma alma imortal que está transitando, por alguns anos na Terra, envergando um corpo físico e envoltórios espirituais, que vem sendo construídos ao longo de bilhões de anos e que adoecem segundo a lei de ação e reação. O médico sabe, portanto, que as doenças, em sua esmagadora maioria, estão relacionadas às imperfeições da alma e à lei do carma. E, principalmente, está consciente de que tem nos seus pacientes irmãos em humanidade aos quais compete servir, segundo os sentimentos de fraternidade exemplificados pelo Médico dos Médicos - nosso Mestre Jesus.

O que diferencia o “médico espírita” de um que não segue a doutrina?
O Espiritismo dá uma visão integral do ser humano: Alma-mente-corpo e estimula o exercício da solidariedade entre todas as criaturas humanas. O que deveria diferenciar o médico espírita em relação aos seus colegas seria o exercício da humildade e da caridade, o compromisso de estudar e aprimorar-se sempre, sem colocar-se como superior a quem quer que seja. Sabemos, no entanto, que existem médicos sem religião, que são seres humanos maravilhosos e que nos dão grande exemplo de solidariedade humana.

Você é presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME) e da Associação Médico-Espírita Internacional. Quais os objetivos dessas duas entidades?
A Associação Médico-Espírita do Brasil foi fundada em 1995 e hoje congrega 33 Associações e tem mais 10 núcleos em vias de formação. Resumidamente, podemos dizer que ela tem por finalidade levar a alma à Medicina em seu duplo sentido: levar as pesquisas científicas, as investigações, e os estudos que demonstrem a presença da alma no comando do corpo físico e a alma no sentido de calor humano, bondade, solidariedade. A AME é uma das instituições que visa fortalecer o aspecto científico da Doutrina Espírita. Mas, sobretudo, tem uma preocupação ética. Com o avanço tecnológico das ciências da vida, tem de estar atenta aos aspectos bioéticos que envolvem a aplicação prática desses novos conhecimentos. A Associação Médico-Espírita Internacional foi fundada em 1999 e tem os mesmos objetivos.

No trabalho como escritora, você escreveu “Lições de Sabedoria - entrevistas do médium Chico Xavier”. Quais as temáticas presentes nas entrevistas?
O livro “Lições de Sabedoria” conta as entrevistas dadas por Chico Xavier ao jornal Folha Espírita, durante 23 anos. Dividi-as por assuntos de modo que é um livro de consulta no qual se tem a opinião do querido médium sobre os mais diferentes temas: amor ao próximo, imortalidade da alma, reencarnação, drogas, fumo e malefícios para corpo e alma, aborto, vida familiar, missão do Brasil, etc.

Uma outra temática abordada por você nos livros foi o aborto. A legislação brasileira permite essa prática em alguns casos, como o da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto em Pernambuco. Você concorda com a legislação referente ao assunto?
A miséria moral está profundamente vinculada à miséria espiritual e ambas devem ser combatidas com a instrução e a educação mais abrangente, dirigida ao ser humano integral, corpo-espírito. Nós sabemos que nos povos mais desenvolvidos o estupro também está presente, mas é muito maior em países como o nosso, onde a educação é relegada a um plano secundário. Por falta de educação geral e irrestrita do nosso povo, a miséria moral está profundamente agravada, como temos visto nos casos de estupro e pedofilia. Para os Espíritos Superiores, o aborto só é cabível em uma situação: quando a vida da gestante está em perigo de morte iminente. Isto porque a intenção não é matar o feto, mas salvar a vida da mãe. Por exemplo, a gestante sofreu um acidente ou foi atingida por um projétil e tem hemorragia grave, o que se tem de fazer é salvá-la, estancando a perda de sangue. Se o feto vier a falecer, a intenção não foi essa. Creio que só poderíamos opinar no caso da menina em foco se conhecêssemos em detalhes a situação clínica da gravidez. A internação e o acompanhamento da gestação por mais tempo nos permitiria opinar com segurança.

Qual a sua opinião acerca do aborto em crianças anencéfalas?
Sou absolutamente contra. O anencéfalo, ao contrário do que o nome diz, possui uma estrutura cerebral em funcionamento - o tronco encefálico - a parte mais primitiva do encéfalo. Por isso mesmo, ele respira, tem batimentos cardíacos, tem metabolismo basal. O anencéfalo é um organismo humano vivo. Se não o fosse não conseguiria formar órgãos e não teria todas as funções mencionadas. Ele deve viver o tempo que lhe foi programado. A Associação Médico-Espírita do Brasil está lançando um livro: A Vida dos Anencéfalos, aspectos científicos, jurídicos e espirituais, onde deixaremos muito clara esta questão.

Há uma suposta omissão dos espíritas sobre a questão do aborto?
Creio que a Federação Espírita Brasileira (FEB), a Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas (ABRAME), a Associação Jurídico-Espírita de S.Paulo e do Rio Grande do Sul (AJE), e, naturalmente, a AME-Brasil, da qual sou presidente, têm se manifestado de forma contundente contra a legalização do aborto no país. Inclusive, eu não poderia deixar de lembrar um acontecimento histórico, os presidentes da FEB, Nestor Masotti, da ABRAME, Zalmino Zimmerman, e da AME-Brasil, visitaram parlamentares e autoridades em Brasília, entre estas o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o Procurador Geral da República, em junho de 2005, distribuindo manifestos contra o aborto, preparados por juristas e médicos, desencadeando com isso um movimento que resultaria na criação da Frente Parlamentar em Defesa da Vida contra o aborto, em agosto de 2005, na Câmara Federal. Na mesma ocasião da visita ao Parlamento e às autoridades, foram enviados mais de 20 mil desses manifestos, redigidos pela ABRAME e pela AME, a todos os juízes do Brasil, em trabalho exaustivo de correio, realizado e subsidiado pela FEB. Embora essas entidades estejam vigilantes e sejam partícipes, sentimos falta, é verdade, de um maior empenho das entidades espíritas, como um todo, em mostrar essa posição contrária, em tomar parte mais ativamente nos movimentos ecumênicos e suprapartidários que se desdobram em todo o país.

Quais as conseqüências espirituais do aborto para a mulher que o realiza? E para a sociedade, quais os efeitos?
As conseqüências psicofísicas e espirituais podem ocorrer na mesma existência em que o aborto foi praticado, tais como o transtorno mental depressivo, a obsessão e os distúrbios diversos do sistema reprodutor feminino. Há também as mesmas conseqüências em existência posterior, sendo as mais freqüentes, os diversos graus de infertilidade, os distúrbios do sistema reprodutor e muitos problemas gestacionais. A sociedade sofre os efeitos da pena de morte que pratica contra inocentes, que não tem como se defender, gerando mais violência sobre si mesma. Muitos desastres morais graves tem aí sua origem.

Certa vez, Chico Xavier teria dito que se o aborto fosse aprovado legalmente no Brasil, o país entraria em um ciclo de guerras. Qual sua opinião sobre isso?

Ele disse isso a mim, diretamente, e estou certa de que isto poderá mesmo ocorrer. Como já me referi o país que pratica esse tipo de violência não consegue sair da cadeia de ódio que gerou para si mesmo. Vivemos em uma grande rede - a teia da vida - o que se faz em um dado ponto desta imensa malha, faz-se a todo o conjunto, com natural repercussão sobre os responsáveis pela ação. Nossa bandeira é imaculada, não tem nenhuma nódoa de violência na sua tessitura, vamos rogar a Deus que continue assim.

Após a morte de Chico Xavier em 2002, muito se fala a respeito dos rumos do Espiritismo no Brasil. Para você, qual a situação atual da doutrina?
Chico Xavier nunca se julgou importante dentro do movimento espírita. Nós sabemos o quanto ele o foi, inclusive dividindo a história do Espiritismo em antes e depois dele, sobretudo, quando deu as duas entrevistas memoráveis no “Pinga-fogo”. Mas, na verdade, ele sempre se julgou grama e como dizia: “grama nasce em qualquer parte; morre uma, nasce outra”. Creio que o Espiritismo será o que nós, os humanos, fizermos dele. É muito difícil julgar qualquer situação na qual estamos inseridos. Acredito que muita coisa tem sido feita por elementos de boa vontade em toda parte. Somente, porém, o distanciamento no tempo dirá se nós os espíritas atuais estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para a vivência e a divulgação dos princípios.

Em meio aos preparativos para o centenário de Chico Xavier, quais as principais lições do mestre que devem ser lembradas?
Sem dúvida, a bondade e a humildade em uma palavra: a caridade.Creio que Chico gostaria de ser lembrado em um grande movimento nacional de auxílio aos mais carentes, tanto da alma quanto do corpo. O movimento em sua homenagem que o deixaria imensamente alegre e feliz seria aquele no qual se levasse consolação aos enfermos, aos carentes de toda sorte, aos presidiários, aos deficientes, enfim, aos irmãos do caminho que Jesus nos ensinou a buscar para derramar sobre eles a bênção da solidariedade.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Entrevista: Amílcar Del Chiaro Filho (1935-2006)

Reproduzimos aqui a entrevista que o Terra Espiritual realizou com o Amilcar, que desencarnou em novembro de 2006. Ao que tudo indica deve ter sido realizada no ano de 2004. Achamos importante pela visão que ele tinha da vida, da Doutrina Espírita e pelo trabalho que desenvolveu, sempre de forma incansável e com muito otimismo. Com certeza excelentes exemplos.

Ronaldo São Romão Sanches
Espiritismo-MS


Escritor, estudioso, médium, palestrante e divulgador da Doutrina Espírita, Amílcar Del Chiaro Filho é um trabalhador incansável do Espiritismo. Apesar das várias adversidades que enfrentou na vida desde a infância, sempre seguiu em frente em busca da construção de um futuro melhor.

Além de todas essas atividades Amílcar ainda encontra tempo para manter o site Amílcar Website (www.guarulhos.tur.br/sol), onde através de vasto conteúdo fornece informações e esclarecimentos sobre o Espiritismo.
Esta semana a equipe Terra Espiritual teve a oportunidade de entrevistá-lo e reproduz abaixo o teor da entrevista.

TE - Como foi que o senhor se tornou espírita?
ACF - Meu pai foi espírita e desde pequeno ouvi alguma referência sobre reencarnação e manifestações de espíritos, mas não foi este o fator determinante, porque saí de casa muito cedo, aos sete anos, para ser internado num Asilo Colônia para hansenianos, onde fiquei até os 16 anos. O Espiritismo aconteceu em minha vida já em São Paulo, atendendo o convite de uma irmã, Norma Del Chiaro. Isto foi ali por 1954. Na segunda semana que fui ao Centro Espírita inscrevi-me como sócio, retirei O Livro dos Espíritos emprestado da Biblioteca do Centro, e nunca mais parei de estudar. Logicamente precisei de alguns anos para que o conhecimento se sedimentasse em meu íntimo.

TE - Quais foram seus primeiros obstáculos, ao seguir o Espiritismo, e como senhor os superou?
ACF - Não tive grandes obstáculos, inclusive porque foi uma época em que morei sozinho, às vezes em pensões e às vezes no próprio local de trabalho. Nesta fase da minha vida era metalúrgico, trabalhava em "torno de repuxo" numa pequena metalúrgica, e à noite armava minha cama no salão da metalúrgica e dormia. A princípio eu era muito crédulo em relação ao Espiritismo, acreditando em tudo que via ou ouvia, me encantava com livros que só alguns anos depois percebi que não tinha nenhuma qualidade. Encantava-me com oradores, mas pouco a pouco fui desenvolvendo o meu senso crítico. Logicamente continuo admirando autores e oradores, mas sempre usando o bom senso.

TE - Quando e como o senhor descobriu a sua mediunidade?
ACF - Na primeira fase no Espiritismo, embora estudasse bastante, mas sem participar nenhum curso, e sim como autodidata, eu apenas freqüentava o Centro sem me empenhar ou me compromissar. Em 1958 casei-me e vim morar em Guarulhos e participar de um grupo familiar de Espiritismo. Na época Guarulhos tinha um único Centro Espírita organizado, com estatuto e registrado em cartório, mas o Centro ficava no interior do antigo Sanatório Padre Bento, que abrigava hansenianos. A cidade tinha alguns grupos familiares que depois vieram se transformar em Centros Espíritas. Foi nesta época que comecei a sentir os primeiros sinais de mediunidade e me dediquei a educá-la, aprimorá-la. Nesta época o Sanatório Padre Bento passou por grandes transformações, ficando liberada a entrada e saída pela portaria. O Centro Espírita, que existe até hoje e se chama Discípulos do Evangelho, estava passando por uma crise forte porque seus dirigentes já idosos não tinham condições de manter o Centro. Algumas pessoas receberam alta e mudaram-se para outros locais e alguns desencarnaram. Esses acontecimentos me levaram a assumir a direção do Centro, e juntamente com um irmão, hoje desencarnado, mantivemos o Centro aberto. Nesta fase minha mediunidade tomou contornos claros e me ajudou muito, mas nos momentos que estava dirigindo reuniões, separava completamente a minha responsabilidade pessoal da mediunidade.

TE - Que recomendações o senhor daria aos médiuns iniciantes para que possam utilizar adequadamente este talento?
ACF - Em primeiro lugar muito estudo. Conhecer profundamente a obra kardequiana é de vital importância. Lembrar sempre que desenvolver mediunidade é desenvolver sentimentos. Outra coisa importante é saber que o Espiritismo não lhe exige nenhuma santidade, mas apenas honestidade, lealdade e conhecimento. Allan Kardec afirmou na Revista Espírita que, em Espiritismo, antes de crer é preciso compreender. Confiar nos espíritos protetores, porém, compreender que eles são limitados, não sabem tudo e podem se enganar. Não ter receio de questionar autores consagrados, expositores, dirigentes ou médiuns, quando não compreender ou não aceitar determinadas coisas. Mas, acima de tudo amar muito. O amor é a grande energia que pode mudar o mundo.

TE - E para os médiuns que não desejam trabalhar sua mediunidade o que o senhor recomendaria?
ACF - Existem muitos médiuns que nem mesmo sabem que são médiuns. Não podemos encarar a mediunidade como punição, nem problema, porque na maioria das vezes é solução. As pessoas que não querem cultivar a mediunidade deveriam compreender que eles queiram ou não, são médiuns, pois esta é uma faculdade natural do ser humano. Conhecendo a mediunidade pode-se ter controle sobre ela. Repudiando-a, somos dominados por ela. Mais do que ser médium é preciso ser bom, honesto, leal, capaz de amar até mesmo quando não se é amado.

TE - Qual deve ser o comportamento dos pais ao descobrirem que seus filhos, já na infância, possuem mediunidade?
ACF - Os pais devem encarar o fato com naturalidade. Logicamente a criança não tem condições de exercer a mediunidade em plenitude, por isso é preciso controlar a faculdade mediúnica com passes, ambiente sadio no lar. É preciso que se trate com a máxima naturalidade a mediunidade para que a criança perceba que não é nada de excepcional. Mas é preciso, também, tomar cuidado para não se bajular a criança por causa da mediunidade, para que ela não a utilize como instrumento de opressão sobre os pais e familiares.

TE - O que o senhor acha da opinião de alguns estudiosos que acreditam que todos os fenômenos mediúnicos são resultados do inconsciente coletivo?
ACF - Os que falam isto tentam explicar sem explicar. A mediunidade está plenamente comprovada e somente os negadores sistemáticos e os que tenham interesse em negá-la se apegam a qualquer explicação que deixe de fora os espíritos. Desde Pierre Janet até os dias de hoje, muita água já passou por baixo da ponte, mas alguns psiquistas e alguns parapsicólogos continuam com suas idéias cristalizadas como se estivessem ainda no século XIX-.

TE - Que mudanças o Espiritismo trouxe para sua vida?
ACF - O Espiritismo mais do que trazer mudanças na minha, me deu a vida de presente. Minha vida sempre foi muito sofrida, especialmente a partir do três anos de idade. Pobreza, doenças, sofrimentos físicos e morais de grande intensidade. Separação da família, discriminação, preconceitos. Nada disto me levou à revolta ou descrença, mas a uma certa indiferença pela vida e pelos valores estabelecidos. Havia sempre uma indagação: por quê? O Espiritismo foi como a luz do sol na manhã nublada da minha vida. Antes eu apenas vivia. Hoje eu existo e sei que posso mudar a minha vida.

TE - Nas suas obras literárias, notamos que a valorização da vida e a superação das adversidades são temas de destaque. O senhor acha que as pessoas, atualmente, estão sem fé na vida?
ACF - Esta é uma questão em que não se pode generalizar. Muitas pessoas estão à deriva na vida, mas muitas outras são exemplos de dignidade e fé. Os meus livros procuram despertar a fé, o entusiasmo pela vida. Entusiasmo tem em si a raiz grega THEOS, que significa Deus. Quem vive com entusiasmo tem Deus dentro de si. A valorização da vida é muito importante. Eu faço uma palestra sobre a valorização da vida que começa com uma citação de Léo Buscáglia: “A vida é um presente que Deus nos deu. A forma como vivemos é o nosso presente a Deus. Que sua vida seja maravilhosa, emocionante”.

TE - Como surgiu a idéia de criar seu próprio site na Internet?
ACF - Foi a bondade de um amigo. Eu tenho um amigo que se chama Ronaldo Viegas que tem uma empresa que cria HP comerciais. Ele é espírita e um dia estávamos conversando na secretaria do Centro Espírita e ele disse: Vamos criar um site na Internet para você? A princípio relutei, mas acabei aderindo. Esta Página ele não cobra nada, e juntamente com os seus funcionários se dedicam a fazê-la bonita e eficiente. Ela me dá muito trabalho para estar sempre atualizada, mas vale a pena.

TE - Além dos livros e da Internet, que outras atividades o senhor desenvolve dentro do movimento espírita?
ACF - Sou articulista e já escrevi para vários jornais e revistas espíritas. Atualmente não tenho escrito muito para a imprensa escrita, mas pretendo fazê-lo novamente. Mantive colunas em jornais da grande imprensa da nossa cidade. Num deles por dez anos e outro por seis anos. Sou radialista da Rede Boa Nova de Rádio há 27 anos. No momento faço a produção e apresentação dos programas Sol Nas Almas e Gente Como A Gente. Este último é sobre o mundo da pessoa portadora de deficiências. Participo da equipe do Diálogos Espíritas, com o Éder Fávaro, e do Conversa Amiga Com Você e Ação Dois Mil, também com o Éder. Sou produtor do Quem Pergunta Quer Saber e Campanha Boa Nova Pela Paz. Escrevo radionovelas e tenho algumas aparições em televisão. Sou delegado da CEPA 0 - Confederação Espírita Panamericana, para Guarulhos. Sou presidente do Grupo de Estudos e Pesquisas Espíritas Herculano Pires, da cidade de Guarulhos e faço palestras. No ano de 2003 fiz em média 10 palestras por mês, fora do Grupo que participo.

TE - Como o senhor vê o movimento espírita atualmente no Brasil?
ACF - Está muito dividido. Em alguns setores há um certo engessamento, e Espiritismo é liberdade. Ele deveria ser o maior movimento democrático do mundo, mas não é. Infelizmente quando se pensa diferente separa-se, mas não deveríamos nos separar pelas poucas coisas que pensamos diferentes, e sim nos unir por tudo aquilo que pensamos iguais. Eu tenho um imenso amor ao Espiritismo, mas não o julgo como o melhor caminho, o único ou o mais perfeito. Ele é para mim um excelente caminho porque o escolhi, mas tenho sempre em mente que o caminho é extático e o caminhante tem que ser dinâmico.

TE - Na sua visão, porque o Espiritismo ainda não conseguiu se expandir muito em outros países?
ACF - São vários os motivos: tradição, intelectualidade exacerbada, descrença, orgulho. A Europa sofreu duas guerras mundiais que arrefeceu a fé, dando oportunidade à criação da teologia radical da morte de Deus. Além disso, a situação religiosa é ainda parecida com a do tempo do Padre Alta, em Paris, que escreveu um livro intitulado: O Cristianismo do Cristo e o dos Seus Vigários. Contudo, se o Espiritismo não se expandiu nesses países, as idéias espíritas tem tomado conta das conversas, da literatura, do cinema, do teatro e até da imprensa.

TE - Este ano estamos celebrando o bicentenário de Kardec. O senhor acha que ele ainda continua atual?
ACF - Extraordinariamente atual. Os novidadeiros, os reformadores que pensam que conhecem Kardec, porém mal leram as suas obras... É verdade que algumas coisas, especialmente ligados às ciências, pois a ciência do século XIX era muito atrasada em comparação com a atualidade, mas nas questões doutrinárias, os alicerces não podem e não precisam de atualização. Para os novidadeiros só há um remédio: Kardec neles!

TE - Quais são seus projetos atuais?
ACF - Na minha idade os projetos são para os dias próximos. Mas com certeza quero continuar estudando. Estou com mais um livro no prelo, completando o 8º e um que acabei de escrever e que uma amiga minha está revisando, será o 9º - Temos um projeto para o programa Sol Nas Almas. Criei com a minha equipe um Simpósio Sol Nas Almas, para atender instituições espíritas que queiram. Tenho o projeto de continuar vivo, ou encarnado, porque tenho muitas coisas a fazer.

TE - Gostaríamos que o senhor deixasse sua mensagem aos leitores da Terra Espiritual.
ACF - Com muita prazer. — A vida é uma sonata de amor escrita por Deus na pauta do arco-íris – O sol faz a regência – A lua tange a harpa – As estrelas formam o coral – Vocês fazem o contracanto. — Muito obrigado pela oportunidade

TE - Obrigado